1960

 João Antônio Caldas Valença

 Entrei no Convento dos Dominicanos no ano de 1960, no dia 30 de janeiro. Vinha de uma experiência de militância na Ação Católica na região nordeste do Brasil e posteriormente assumi a direção nacional e latino-americana da JEC (secundarista). Foi um período rico para a Igreja Brasileira que preparava o aggiornamento do papa João XXIII. Uma boa parte do clero tinha feito seus estudos na Europa e tinha chegado com idéias novas e renovadoras assumindo a direção dos seminários menores e maiores que estavam nas mãos dos lazaristas e mesmo do clero diocesano com mentalidade mais tradicionalista, com ranços de uma teologia do século XIX que teimava em lutar pelos princípios do concílio de Trento e concílio do Vaticano I. Sua formação era muito manualesca.

Esses sacerdotes que vinham com outra cultura (ainda européia) voltaram-se  para o ensino e a assistência aos jovens camponeses, operários, estudantes secundaristas e universitários e, com o mesmo espírito de Cardjin, o fundador da JOC (juventude operária católica). O movimento se alastrou para todo o Brasil em poucos anos e logo se criou toda uma estrutura que estava centralizada no Rio de Janeiro,  a nível nacional e latino americano. Em termos regionais a presença da Ação Católica se repetia sempre com a anuência dos bispos mais progressistas.  

Pouco a pouco a presença do leigo na Igreja ia se firmando com posições as mais corajosas desmoronando o seu aspecto sacralizador, dúbio e hierarquizante. Os primeiros atritos com alguns bispos de princípios conservadores já se fazia ouvir na sociedade brasileira e eram abafados pela Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, nascida na segunda metade da década de 50 e que contava com Dom Helder Câmara na sua direção. Seus assessores eram sacerdotes  abertos a uma nova teologia e pastoral e assistentes desta juventude católica. Aos poucos, estes padres ascendiam às sedes episcopais de várias cidades brasileiras. 

 A palavra de ordem dessa Igreja que se renovava era SERVIR. Não mais ser servida. Desta geração de jovens, vários quiseram entrar nos seminários para estar a serviço das comunidades nascentes. Foi um deus nos acuda nas instituições religiosa de preparação para o sacerdócio que não estavam preparadas para estas “vocações tardias”. Muitos viam nisso um sinal novo. Não tínhamos passado pelas lavagens cerebrais de um seminário menor onde adolescentes se preparavam para os estudos de filosofia e teologia. Nascia um novo desafio: Como iriam resolver os estudos dos clássicos com o domínio prévio do latim e do grego e do hebraico?  Como adaptar estas vocações  a uma estrutura de ensino e de vida fechados frente a uma realidade “do mundo” que estes jovens traziam em suas bagagens de vida universitária, operária e secundarista? As soluções foram as mais diversas, algumas coerentes, outras jocosas, outras dignas de Stanislaw Ponte Preta  que começava a escrever o “Festival de Besteiras que Assola o País”.  

Escolhi os dominicanos porque além de bons pregadores (sua vocação primeira como ordem), tinham uma presença alegre, jovem, culta e evangélica. Logo cheguei ao noviciado em Belo Horizonte, onde passávamos um ano de “experiência” e ganhei um novo nome: Maurício. Com mais 12 rapazes iniciávamos o período de noviciado na província dominicana brasileira. Um ano mais tarde restaram seis, depois de venturas, aventuras e desventuras, na mão de um padre mestre (guru) rígido, centralizador, despótico e mal adaptado à Ordem. Sonhava com a experiência como padre operário, que tinha passado no porto de Marseille (França) com o grupo do ex-dominicano Pe. Loew.

 Esse grupo sobrevivia à custa de uma presença constante do fundador na corte romana para desfazer equívocos da experiência frustrante para a Igreja da perda de vários padres operários na França pós-guerra que, encontrando obstáculos por causa de suas posições conflitantes por estarem engajados nas lutas operárias e sindicais, terminaram tomando uma posição laicizante e muitos encontraram o caminho marxista. O pe. Loew, critico acerbado do mundo industrializado e consumista conseguiu, em Roma, juntamente com Pe. Voillaume e os irmãozinhos De Foucauld, o estatuto e beneplácito para sua experiência.

 A presença deste fundador aqui no Brasil se fez dentro de muitas contradições. Seu grupo de padres operários na cidade de Osasco teve uma participação efetiva e presente nas lutas operárias de 64-68,  terminando com uma morte misteriosa por atropelamento de um dos seus membros e expulsão de outro, do Brasil, pela polícia política. O pe. Loew, anticomunista rígido e seu pupilo, nosso mestre no noviciado, sentiram dificuldade em acompanhar a experiência dos padres operários de sua própria fundação em  Osasco.  

Nesta época de noviciado éramos todos jovens com exceção de um ex-padre secular,  que marcou sua presença entre nós com o ranço das brigas corriqueiras com seus bispos em dioceses comandadas de modo tradicional. Encontramos um clima favorável para uma iniciação religiosa toda centrada na tradição de 600 anos da Ordem dominicana com ritmos e ritos de estudo, trabalho e oração. Ficávamos desligados dos contatos com nossas famílias e nossos amigos que nos viam em raros dias,  conforme prescrição do mestre.

 No meio de catarse, descobertas místicas de iniciados e aprofundamentos da história da Ordem e da espiritualidade tradicional da Igreja, grandes crises pessoais brotaram e a inadaptação a esse processo, mesmo com a ajuda de psicólogos, levou à desistência de muitos. O convento de Belo Horizonte, sede do noviciado, tinha uma presença atuante em todos os setores da sociedade e aprendíamos a sentir a importância da Ordem em todo um processo de mudança da sociedade com novas fundamentações filosóficas e teológicas. A comunidade era visitada pela elite  política e pensante da época. Não raro em nossos refeitórios tínhamos a presença de um bispo recém eleito, de filósofos, teólogos europeus e brasileiros, de artistas plásticos,  a exemplo de Marcier, de temperamento vulcânico e que deixou inúmeros quadros e um afresco na nossa porta de entrada. 

Sentíamos que, nessa época, a província estava saindo do jugo francês de onde tinha nascido, no convento de Toulouse, reduto da aristocracia européia e russa nas primeiras décadas deste século.  Os primeiros frades chegaram ao Brasil e logo se interiorizaram em Minas, Goiás e Pará, enfrentando  uma dura realidade que fazia cair por terra os sonhos românticos dos missionários franceses que aqui chegaram com leituras de Chateaubriand e do movimento europeu pró-indigenista do século XIX. O lombo do burro, as trilhas, a febre amarela e os índios, as cheias e o trabalho de desobriga fizeram nascer um novo modelo de catequese mais brasileira. Sem estarmos vacinados para eventos inesperados como o do frei Caron que chegando ao Brasil no início dos anos 60, para salvar os índios do inferno, batizou toda a aldeia e recebeu um preceito de lá permanecer por muitos anos.  

Logo após a implantação da ditadura em 1964 no Brasil, houve toda uma onda de re­pressão, e a sociedade como um todo recebeu vários impactos de ordem econômica, política e social. Foram esmagadas esperanças de muitos grupos que se organizavam na sociedade ou como classe, através dos seus sindicatos ou grupos que tinham afinidades religiosas, ou mesmo afinidades políticas. Esta falta de esperança levou alguns dominicanos e outros religiosos a se organizarem extra-muros para discutir e refletir sobre essa nova ordem implantada no Brasil, procurando saídas para o desespero e mesmo para a atomicidade desses grupos. 

O primeiro fruto desse trabalho foi a realização do curso sobre justiça e a doutrina social da igreja, dirigido pelo Frei Carlos Josaphat sob o beneplácito do Cardeal Mota, naquela época dirigindo a Igreja de São Paulo. Não foi à toa que houve uma necessidade desse beneplácito. Logo as pressões surgiram, não só através de atos indiretos vindos da classe militar, como também daquela burguesia que rodeava os dominicanos e os endeusava e que agora era afetada na sua própria ideologia. Vieram também pressões da própria Ordem religiosa, principalmente endereçadas ao convento de São Paulo.  

Esses cursos eram dados dentro da própria Igreja de São Domingos,  que pela sua arquitetura tem um grande espaço em sua única nave. Algo maravilhoso. Ficava lotada com pessoas dos mais variados credos e das mais variadas ideologias,  para ouvir a palavra de mestre do doutor dominicano. Eu me lembro também da oposição que alguns jornais,  principalmente “O Estado de São Paulo” , faziam a esses cursos e a qualquer outro tipo de reunião nos salões do convento. Bem antes da quartelada de Abril de 1964 e durante o concílio Vaticano II, era praxe desse jornal (e temos sua coleção à disposição como testemunho) capciosamente adulterar o conteúdo das notícias com uma chamada ou título que desviava da verdade que era contida na matéria do artigo. Era uma maneira  de já orientar o leitor ideologicamente para a leitura do texto.

O curso do frei Carlos sofreu várias pressões desse tipo. Mas foi  coroado de êxito com a presença de grandes nomes da vida nacional que deram depoimentos por ocasião das aulas, não só tomando posições teológicas mais ousadas enquanto membros do clero e da hierarquia da Igreja,  como a liderança leiga da Igreja e mesmo não religiosos que colocavam suas posições ideológicas, de apoio à luta anti-ditadura, colocando perspectivas históricas e fazendo análises para uma melhor compreensão do passado recente do Brasil a partir da ditadura Vargas. O curso trouxe esperanças para toda aquela multidão que ia ao local ouvir, sentir e pro­curar saídas num lugar que se respirava um pouco de liberdade.

 Lembro também de umas palestras de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athaide, promovidas pelos dominicanos. Ele, com sua coragem peculiar, fez todo um histórico do pensamento brasileiro, e do cristianismo vivido no Brasil e nomeou os elementos todos que ajudariam a todos nós na luta pela nossa liberdade. Essa perspectiva histórica fez com que as pessoas presentes tivessem um aparato crítico para continuar nas suas ações organizadas, revendo a formação dos grupos de trabalho e de apoio a núcleos de oposição. Para que todos tivessem a força para encontrar um caminho o mais rápido possível para continuar presentes na sociedade brasileira,  como frente de reação ao statu quo vigente, com a chegada dos militares ao poder. 

Houve ainda alguns cursos com outras personalidades,  como o próprio Cardeal Mota. Aconteceram também reuniões entre as várias Igrejas cristãs de várias denominações. Nesses encontros ecumênicos havia momentos de oração dos vários cristãos, cada dia em uma Igreja de um grupo religioso participante. Sobretudo as lideranças dessas Igrejas cristãs faziam oposição ao regime. Tinham na sua pregação a perspectiva de um encontro de todas as comunidades cristãs de várias denominações, e também de mobilização contra a ditadura. Esses encontros ecumênicos se efetivaram durante a década de 60.

 Ressalto agora a liderança de Aarão Sabzervian que juntamente com Brady Tyson  coordenava as reuniões. Uma figura trágica, a do pastor metodista Brady Tyson que,  marcava sua presença em todos os grupos de esquerda da cidade de São Paulo e cidades próximas, inclusive os marxistas. Há indícios de que trouxe a presença da CIA para o interior desses grupos. Participava como membro atuante em alguns grupos e oferecia mimeógrafos, telex, etc, (em alguns momentos do próprio consulado americano em São Paulo) para ajudar as ações dos movimentos clandestinos da época.

 É interessante fixar a figura de Brady Tyson porque ele era de inteira confiança do movimento ecumênico e considerado confiável pelas organizações de esquerda. No entanto, esse senhor, anos mais tarde,  apareceu na lista dos elementos que pertenciam à CIA, departamento de informação norte-americano na América Latina. Ele tinha acesso a todas as comunidades cristãs que trabalhavam no movimento ecumênico, e um acesso íntimo. Falo da sua presença no Convento dos Dominicanos, onde todas as portas estavam abertas a ele. Outras figuras também estiveram nestas comunidades religiosas e deixaram um rastro misterioso,  e até hoje nos inter­rogamos se não eram da famosa comunidade de informação pelas suas atitudes e acompanhamento de fatos bem específicos e conhecidos por poucos ligados a luta contra a censura, ao congresso de UNE, da UEE, etc.  

Estou lembrado que um dia veio ao convento um delegado do DOPS e como pediu para conversar com um padre  e me chamaram para ouvi-lo. Eu o levei a uma das salas que eram denominadas por nós de parlatório. Ele estava revoltado com a atitude de um padre que tinha agido como homem,  mas que seus atos tinham repercussão social. E que ele não admitia isso e achava que o padre era homem como qualquer outro na sociedade brasileira. Estava ali para poder discutir sobre a posição daquele sacerdote na sociedade,  não podendo se eximir da responsabilidade de sua cidadania;  logo, dos seus atos. Gostaria de me ouvir como sacerdote. Respondi que todos os sacerdotes,  antes de tudo,  são cidadãos com todos os direitos e responsabilidades. Se o padre,  pelos seus atos tivesse de ser preso, ele teria de responder pelo que fez diante de toda a sociedade.

 Eu achei muito estranho na época a presença desse delegado e a sua teatralidade,  embora tivesse algum problema de consciência. Mas a necessidade dele em afirmar que qualquer sacerdote, qualquer que seja, tinha que responder pelos seus atos, principalmente pelos seus atos políticos à sociedade brasileira, era muito estranho. Dois anos depois encontramo-nos na sala de tortura no DOPS.

 Eu também me lembro de um ou mais casos de pessoas que profissionalmente estavam ligados à rede de ensino secundário e que se acercavam do convento e chegavam a me apresentar toda sua família: esposa, filhos. Levavam-me às suas casas. Tinham uma grande necessidade de informação filosófica, ideológica e mesmo de grupos de esquerda. Que­riam que facilitássemos para eles a entrada em grupos de trabalho ou de ação contra a ditadura. Estes casos e outros que aconteceram com outros religiosos me levaram a um cuidado especial com a segurança das pessoas envolvidas, o convento, os grupos.

 Havia reuniões dentro do convento das quais participavam leigos e religiosos ou unicamente leigos. Também havia regularmente conferências, cursos cujos temas estavam li­gados a uma resistência ao regime. Os religiosos também participavam fora do convento como convidados de vários eventos. O convento na época teve suas portas abertas com a anuência de toda a comunidade. Não só o de São Paulo, como todos os outros conventos da ordem dominicana no Brasil, que pertenciam à província brasileira.

 Foram realizados neles congressos de UNE (União Nacional de Estudantes) e também da UEE (União Estadual de Estudantes), encontros com intelectuais em geral e em especial das universidades, dos escritores, das pessoas que trabalhavam em comunicação, jornalismo, televisão, atores, teatrólogos, cineastas. Todos os que lutavam também para abolir a censura no Brasil ou qualquer elemento repressivo provocado pelo regime. Os fatos captados pela mídia da época nos locais religiosos estão provando a veracidade  de que os dominicanos sempre estiveram abertos à oposição brasileira durante o período ditatorial. Basta pesquisar os jornais de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, de São Paulo.

 Havia uma necessidade de se reunir com segurança por parte dos militantes marxistas que pertenciam a pequenas organizações e não tinham uma infra-estrutura para poder se reunir em qualquer lugar. Lembro-me de reuniões, inclusive com representação latino-americana da IV Internacional dentro dos parlatórios do convento dominicano de São Paulo, assim como houve reuniões da AP (Ação Popular) e de outras organizações;  na época,  Inclusive na Capela do Vergueiro, com  a liderança operária para a fundação de uma CGT.

Até 1967 não havia grupos organizados de frades que pertencessem a esta ou aquela organização. Havia frades que pertenceram a alguma antes de entrar no convento, mas frades que continuavam a pertencer a uma destas organizações, não. Isto é importante para determinarmos exatamente a partir de quando começou um compromisso maior de alguns frades ou grupos de frades dentro do convento com uma ou várias organizações de esquerda da época.  

Acho que o ano de 1967 foi o divisor de águas. 1967/1968 foram os anos em que começaram a abertura para que os estudantes e os sacerdotes mais jovens saíssem do convento e fossem viver em pequenas comunidades em casa e apartamentos em vários bairros de São Paulo. Havia toda uma fundamentação inspirada na “secular city”, na teoria da secularização (cf. Cox, Harvey: The secular city, 196?).

 Enquanto as Igrejas cristãs das diversas denominações estavam caminhando para uma clericalização, a Igreja Católica repensava seu lugar na sociedade e procurava desclericalizar-se. Não era uma experiência única no Brasil. Os jesuítas já a vinham realizando há bastante tempo e o seminário de Viamão no Rio Grande do Sul e o de Olinda  já tinham iniciado há anos a formação de grupos religiosos vivendo fora das instituições de ensino católicas. Todas experiências bastante avançadas para a época. Houve oposição dentro do convento a esta saída, assim como houve oposição de vários superiores de outras ordens e bispos. O que se interrogava era:  como a Casa Geral dos Dominicanos em Roma iria responder a esta decisão do Brasil?  A oposição que havia a esta decisão por parte de alguns frades é porque não admitiam, e a formação dentro da tradição estava muito acirrada, a saída dos jovens para essas novas comunidades nascentes. Alguns tinham medo de enfrentar sua inserção mais profunda na sociedade, sua presença no mundo do trabalho, a administração mais direta de uma casa com toda sua responsabilidade de acompanhar até a infra-estrutura. Sem contar os desafios afetivos...

 Trabalhar dentro de um mercado que a sociedade poderia oferecer e não depender da burguesia era algo novo na época. Alguns dos mais velhos tinham medo dos desafios apresentados por essa mesma sociedade em suas relações complexas e conflitantes. Lutavam para que toda uma nova geração não tomasse a decisão do confronto. De viver novas experiências em comunidades extra muros conventuais. Mas a força dos jovens foi mais forte e as experiências foram acontecendo nessas várias comunidades.

A presença dos estudantes dominicanos na Universidade de São Paulo e na Universidade Católica (PUC) nas áreas de Filosofia, Ciências Sociais, História fez-se notada e enriqueceu as comunidades nascentes, trazendo vários elementos novos de vivência, inclusive com a participação dos frades estudantes no movimento político estudantil, presença atuante em todas as passeatas de 68,  presença e representatividade no Congresso da UNE em Ibiúna com presença na preparação do congresso, atuação constante nas assembléias do CRUSP (Centro Residencial de estudantes da Universidade de São Paulo) onde nasciam as diretivas para as lutas dentro e fora da Universidade. A  nova cidade universitária surgia e nela fervilhavam grupos com as mais diferentes nuanças ideológicas. A presença religiosa neste meio era atuante como de a qualquer estudante com participação efetiva na luta contra ditadura que se processou nesta época. Começamos a perceber mais agudamente a repressão que se formava fora da USP e localizada  ou estratificada no Mackenzie com um poderoso foco de direita ligada à rede de informação dos militares. Culminou com o quebra-quebra da Faculdade Maria Antônia, pelo pessoal do Mackenzie e grupos do Comando de Caça aos Comunistas (CCC).  

Alguns grupos universitários, para serem mais conseqüentes, saíram de uma posição de luta interna dentro da universidade para militarem nas organizações de esquerda que tinham uma proposta para lutar contra o regime, queda da ditadura militar através de ações que,  na época,  achávamos ser a atitude mais correta; e tinham suas raízes na luta latino-americana, na guerrilha comandada pelo Che Guevara e Camilo Torres e outros líderes que lutavam contra as ditaduras latino-americanas. Em 68 estourou também para a sociedade uma crítica que saía dos ex-militantes e dirigentes do PCB a respeito da atuação tímida do partidão no processo de luta contra a ditadura militar. Foram esses dissidentes que os jovens dominicanos e outros religiosos e leigos cristãos tiveram acesso para uma convivência e crítica a respeito de cada organização ou grupo clandestino no Brasil. A partir daqui um pequeno grupo de dominicanos começava a participar das reuniões e receberem tarefas mais ligadas à  logística.

 Ora, os frades já vinham atuando no meio universitário. E não só no meio universitário. Na capela do Vergueiro estava aberto um espaço para a militância operária através do MPL (Movimento Popular de Libertação). Poucos militantes,  mas que tinham uma presença muito forte no meio dominicano. Uma das primeiras tentativas de iniciar uma CGT no Brasil,  com presença da militância que vivia clandestina teve lugar no Vergueiro. As lideranças sindicais “oficiais” também compareciam. O MPL também tinha mais acesso à militância cristã,  principalmente a que atuava na Ação Católica,  e especialmente os profissionais liberais: engenheiros, advogados, médicos, professores. Chegaram a formar um Consórcio de carros para ajudar os dominicanos, chamado “Aprovei”.

  Eventualmente também ajudavam as organizações. Eu me lembro que alguns frades ajudaram na logística do PC do B e da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Os primeiros a entrarem na ALN foram o frei Osvaldo e frei Betto, logo outros foram aderindo a esse projeto de luta contra a ditadura militar. Dado o conhecimento que tinham de pessoas em todas as camadas sociais, a coordenação logística ficou com os frades. A rede de conventos era importante para o projeto e era a base de uma infra-estrutura nascente, de comunicação. A quantidade e qualidade de pessoas formadas pelos religiosos pelo Brasil facilitavam o processo de arregimentação, principalmente porque todas essas pessoas já tinham uma prática de militância.

O convento de São Paulo foi a base para uma extensão maior da presença militante na capital. Pensava-se para um futuro próximo uma  atuação maior do convento de Conceição do Araguaia,  como início da logística para formação dos grupos de guerrilha da ALN. Nessa região, os dominicanos atuavam desde o começo do século junto aos índios e caboclos e conheciam as matas como ninguém. O  local era bom para o projeto de Guerrilha que Marighella tinha idealizado estendendo-se a algumas trilhas nos estados vizinhos,  região que o Lampião tinha percorrido.  

Essa adesão por parte desse grupo de frades dominicanos não foi da noite para o dia, demorou alguns meses  para que um ou outro aderissem ao grupo inicial. Também não foi fácil escolher uma liderança. Primeiramente havia uma bipolaridade na liderança entre as figuras de frei Betto e de frei Osvaldo. Esta tensão continuou durante toda a existência do grupo até a prisão. Lutava-se para que a liderança do frei Betto não se tornasse a única e exclusivamente especificada dentro do grupo dos dominicanos. Ela também se derramava fora dos grupos religiosos.

 Pouco a pouco, e por causa da nossa influência e presença no meio social paulistano, conseguimos aglutinar em torno de nós nomes que já tinham tido uma militância universitária, e tinham passado por algumas organizações, marxistas ou não marxistas, para seu engajamento na ALN. As abordagens eram feitas com cuidado, paulatinamente, com leituras e críticas aos textos da ALN e com discussões sobre outros textos marxistas, mesmo de outras dissidências, e até textos mais acadêmicos como o de Althusser, de Camilo Torres, de Guevara e alguns textos de Marx.

 A figura do frei Osvaldo foi mais forte em alguns momentos e foi quem determinou mais agudamente o projeto e planeja­mento do trabalho desse grupo de frades e de militantes que extrapolava o estado de São Paulo, atingindo até contatos no  Nordeste e em Goiás. Todos os novos militantes ou áreas próximas tinham muito claro todo o planejamento do que queríamos, no que diz respeito ao projeto de luta anti-regime. Tudo era muito bem acolhido e as ações logísticas cresciam sob a orientação da coordenação estadual ou nacional da ALN. Tínhamos a disposição carros, casas, salas de conventos, equipamentos gráficos, etc. Tudo nos ajudava para que recebêssemos os militantes que vinham de vários estados do país e que se dirigiam às fronteiras  para fugir da perseguição da polícia política ou para se dirigir para os cursos dados em Cuba ou Argélia. 

 Alguns conventos de religiosas tinham colocado em disponibilidade infra-estrutura para criarmos um mini-ambulatório para operações de urgências com um pequeno banco de sangue. Uma pequena rede de médicos com várias especialidades que já estavam avisados para qualquer necessidade de urgência. Outras pessoas criavam redes de captação de trabalho para militantes que viviam em semi-clandestinidade, outros trabalhavam para a alimentação e pousada dos que passavam a  caminho do Uruguai, Argentina ou Paraguai.

 Essa acolhida os preparavam psicologicamente para uma nova etapa que iriam enfrentar fora do nosso país. Tivemos uma prática de meses ou no máximo ano e meio. Não demorou anos. Foi um período de muita tensão, em plena vigência do AI-5 (Ato Institucional no 5 imposto pela ditadura militar). Não tínhamos claro  todos os limites da segurança imprescindível para este tipo de trabalho. Um dos princípios primeiros de segurança da ALN era de que no máximo poderíamos conhecer de quatro a cinco pessoas do grupo e com nome frio. Entretanto,  vivíamos abertos para dezenas e dezenas de pessoas, usando os nossos nomes religiosos.

 Outro ponto vulnerável era quantitativamente a pouca militância na ALN para a quantidade de tarefas,  tanto na área logística como na área de apoio ao grupo armado.  Começaram a nos pedir para que fizéssemos ações secundárias como a guarda de pessoas, acompanhamento de pessoas feridas durante todo o seu processo de recuperação, etc. Não tinha sido para essa finalidade que os dominicanos haviam entrado nesse trabalho.  

Ora, com a tensão externa  nos momentos mais cruciais da repressão militar aos grupos organizados,  e a prisão  de vários militantes das diversas organizações clandestinas; e com a tensão gerada dentro do convento por ordens advindas de Roma e da hierarquia católica brasileira, os frades que tinham se engajado na luta política foram,  pouco a pouco,  sendo cerceados para que não houvesse um desvio grande da sua missão ou função dentro da comunidade conventual. Alguns nomes de religiosos foram logo queima­dos  na província brasileira e na vice-província italiana, principalmente pelos frades mais tradicionais.  

Articularam-se os da ALN para uma saída tática e estratégica de frei Betto para o Rio Grande do Sul, onde estudaria teologia na faculdade dos jesuítas em São Leopoldo. Também uma saída de frei Osvaldo para a Europa, com a finalidade de um aprofundamento e um estudo do marxismo num instituto dominicano na Suíça. O frei Betto no Rio Grande do Sul daria uma ajuda ao grupo que ficou em São Paulo para levar os militantes da ALN ou de outras organizações para Argentina ou Uruguai. Osvaldo, na Europa teria uma função de ser porta-voz junto aos meios de comunicações internacionais das ações da ALN e de ajudar junto à mídia a aceitação da guerra de guerrilha que estava planejada para a região do Araguaia.  Eventualmente também captaria dinheiro para ajudar em todo este projeto.  

Com a saída dessas duas lideranças,  gerou-se uma tensão no grupo para a escolha de um substituto para dirigir o núcleo do convento de São Paulo. A responsabilidade caiu na pessoa de Frei Fernando,  que aceitou com dificuldade porque não se sentia apto para as­sumir esta coordenação. Mas seu nome foi referendado por todos. Apesar que na época sofria restrições, da parte de Frei Betto, para assumir a nova liderança.

 Faziam parte da ALN no Convento de São Paulo: frei Osvaldo, frei Betto, frei Maurício (João Valença), frei Fernando, frei Ivo Lesbaupin,  frei Magno Vilela, frei Luis Felipe Ratton Mascarenhas,  frei Giorgio Callegari,  frei Tito de Alencar. Esses é que tinham se decidido por uma participação efetiva na ALN dentro do Convento dos dominicanos. Nós estávamos tentando conversar com outros frades de outros conventos para tentar formar núcleos em outras cidades em que os dominicanos atuavam e até já tínhamos contatado outros religiosos de outras ordens como os franciscanos de Petrópolis.

 Entre os participantes estava o frei Tito que teve, como eu, uma militância no meio secundarista no Nordeste e participou da equipe nacional de Ação Católica e pertenceu a outra geração, posterior à minha em poucos anos. Participou efetivamente em todos os movimentos do nordeste pró-reformas de base no Brasil no período pré-golpe militar e pós-golpe militar antes de entrar para o convento dominicano, tendo uma amizade com vá­rios militantes marxista nordestinos,  e por estar próximo participou de várias tarefas na luta contra a ditadura. A sua presença no grupo da ALN nunca foi bem definida por ele próprio e eu diria mesmo bastante conflitante. Achava que a inserção nesse grupo ia contra alguns valores pessoais e de princípios filosóficos e mesmo ideológicos. Não admitia também,  na primeira fase do grupo,  nem a liderança do frei Betto, nem a liderança do frei Osvaldo. Na segunda fase, com a coordenação de frei Fernando, ele colocava claramente para o grupo o conflito pessoal existente agudamente entre a teoria marxista do materialismo dialético e a sua fé, a sua credibilidade no mundo religioso. Na sua vocação, ele compreendia que num determinado período ou fase histórica da luta aqui no Brasil poderia existir um trabalho comum de cristãos e marxistas mas ele não via bem como seria sua participação e dos frades como grupo religioso pertencendo a uma organização marxista declarada.  

O que aconteceria  durante todo o processo de luta em suas novas fases? Como enquadraria  tudo isso aos valores cristãos que conflitavam com a pra­xis que presenciara no período de militância no Nordeste? Junte-se a este dilema  um outro, comum a outros religiosos neste período,  que passavam por um tratamento analítico severo. O próprio frei Tito estava fazendo uma narco-análise que abriu o seu lado consciente/inconsciente de modo muito mais agudo, o que provo­cava uma postura pessoal muito crítica, questionando tudo o que ele fazia e pensava como valores. Junte-se ao que ele passou na prisão e teremos um quadro que explica o seu ato extremo na França em 1974, suicidando-se.  

Voltando ao grupo da ALN,  de religiosos  e leigos, os acontecimentos foram atropelando-se, havia uma necessidade de que a militância perigosamente fosse acumulando tarefas. Começamos a ampliar mais ainda os quadros externos ao convento, conversando com as pessoas que, para nós, eram melhor preparadas e mais confiáveis e que estavam esperando um chamado para integrar o grupo. Isto não era realizado de maneira gratuita e apressada ou mesmo enganosa; cada nome foi discutido e trabalhado com acompanhamento por parte de todos em cada reunião. Nós apresentávamos os textos para as discussões e gradativamente, uma linha de ação era dada a cada um, para que houvesse, através da prática, um avanço pessoal de cada militante no campo político.

 A presença dos antigos militantes dissidentes do PCB foi se tornando maior nas nossas vidas, através de uma relação mais forte,  gerando confidências sobre o que se passou e passava no PCB e nas organizações, discussões sobre um ou outro ponto teórico e sobre a bibliografia clássica da época. Lembro-me particularmente do Dr. Samuel Pessoa, um dos maiores sanitaristas que o Brasil já teve, convidado pela ONU para provar a guerra bacteriológica feita pelos americanos na Coréia (paralelo 38) na década de 40. De sua esposa Dona Jorgina,  de Câmera Ferreira  e de Carlos Marighella, entre vários outros. 

Carlos Marighella fazia reunião conosco em locais previamente preparados pelos frades, inclusive em alguns colégios de religiosas e outros pontos escolhidos por ele (Alameda Casa Branca, uma rua atrás do cemitério da Consolação, atrás do cemitério do Araçá, algumas ruas do Jardim Europa, etc). Ele chegou a ter conversas e reuniões com nossos superiores, tanto o provincial como priores da província brasileira no convento de São Paulo. Essa era uma tática que o grupo dos dominicanos planejou exaustivamente e a cumpriu como meta importante. Que os superiores estivessem sabendo de nossas ações, para que melhor fosse facilitado o nosso trabalho em suas diversa dimensões e nos diversos estados brasileiros. Particularmente a região de Goiás e especialmente Conceição do Araguaia. Respeitariam as nossas saídas e as nossas viagens.  

Pouco a pouco, essa presença de Marighella do nosso grupo foi se estendendo e se efetivando em outros grupos de militância,  na sua maioria de leigos. Não mais se reunindo dentro do espaço religioso, mas nas casas dos novos militantes que estavam abertas para receber algumas tarefas logística da ALN. Os encontros com o Baiano continuavam nos vários bairros da cidade de São Paulo para receber e dar os resultados das tarefas pedidas. Com o recrudescimento da repressão nesta época fomos, como grupo da ALN, definindo-nos para um trabalho mais específico e deixando de lado as tarefas e responsabilidades que tínhamos com outros grupos de esquerda. Deixando que os religiosos que não pertenciam ao nosso grupo continuassem com os contatos. Para nós já bastava o que nos era pedido pela ALN. Os outros ficariam com AP (Ação Popular), PC do B,  MPL, os socialistas, etc.  

Começamos a abrigar na Capela do Vergueiro, onde eu morava com frei João Batista, algumas pessoas que estavam de passagem pelo estado,  a caminho do Rio Grande do Sul e do Uruguai. No caso de nossos companheiros militantes outras tarefas eram dadas, não só a de hospedagem  de alguns militantes procurados pela repressão como a de confeccionar documentos civis para poderem sair do país, fotografias para esses documentos, pequenas gráficas improvisadas, estoque de documentos da ALN, etc. Estávamos em pleno ano de 1969. À medida que os meses  iam passando, acontecimentos importantes para nós iam nos envolvendo mais, atravessávamos perigos bem maiores, havia prisões de companheiros, aberturas de nomes na tortura, avanços nas informações a respeito de cada grupo de esquerda por parte dos vários sistemas de informações da ditadura: DOPS, OBAN, CENIMAR, etc.  

Antes da nossa prisão, eu e frei Fernando trabalhávamos na Editora Duas Cidades sob o comando do frei Benevenuto Santa Cruz. Havia um ponto de táxi em frente  a essa empresa que recusava qualquer tipo de cliente,  com exceção daqueles que saiam da livraria. Principalmente se fosse um de nós. Os taxistas não aceitavam corrida de terceiros. Lembro-me também que estava estudando, nesta época, em uma faculdade perto da cidade de São Paulo e várias vezes tinha a impressão de estar sendo seguido dentro do trem no qual eu  fazia o percurso diário.

 Outros fatos foram se somando, criando um clima geral de desconfiança,  culminando com um convite aos padres dominicanos para que fossem, um deles ou vários, ao hospital onde estava acamado o pai de um dos nossos militantes presos: o Dr Madeira. O padre escolhido foi o Frei Guilherme que não tinha envolvimento com qualquer grupo e era um dos mais velhos da casa. Durante a visita feita pelo Dr. Madeira ao seu pai, este transmitiu ao Frei Guilherme que o frei Fernando e o Frei Ivo já tinham sido abertos à repressão através da caderneta de endereços do Paulo de Tarso Venceslau, por ocasião da sua prisão em São Sebastião,  uma das praias do litoral de São Paul,  logo após o seqüestro do embaixador Elbrich.  

Paulo de Tarso era do grupo tático armado (GTA) da ALN,  tinha sido  universitário na Maria Antônia e participou ativamente do seqüestro. Quando os militares entraram  no local onde estava o embaixador,  no bairro do Rio Comprido (RJ) encontraram um paletó,  e através da etiqueta do alfaiate da cidade de Taubaté chegaram à pessoa de Paulo. Na caderneta estava o nome dos dois dominicanos e o telefone do Convento das Perdizes em São Paulo.

 Frei Guilherme,  após ouvir o relato, transmitiu-o aos seus superiores e ao grupo do convento que trabalhava na ALN. Aos freis Fernando e Ivo,  especialmente. Imediatamente pedimos uma reunião com Carlos Marighella em meu apartamento, pois fazia dois meses que eu tinha pedido para sair da instituição dominicana e morava na Rua Rocha, perto da praça 14 Bis, na Avenida Nove de Julho.

Gostaria de refletir um pouco sobre a qualidade do posicionamento, da postura, do trabalho das pessoas que nos ajudavam nesse trabalho político. Na sua maioria, tinham pro­fundas raízes cristãs, não eram marxistas. Acreditavam na luta contra o regime ditatorial aqui no Brasil. Eram pessoas que cresceram religiosamente conosco,  acreditando sempre na postura dos dominicanos e cresceram politicamente, com consciência e muita lucidez. Digo consciência e lucidez porque nada foi escondido a todos que trabalhavam conosco, os perigos e qual o fim a que desejávamos chegar. Todos os atos eram refletidos, discuti­dos, comentados, criticados para se ter uma decisão mais profunda.

 No momento em que as casas dos nossos amigos foram abertas para receber militantes de várias organizações de passagem pelo estado de São Paulo é que percebemos, através de conflitos e sintomas,  que o andamento e vida das organizações, e em especial da ALN, não ia bem. Primeiro: havia poucos militantes e não havia crescimento dos quadros. Segundo: havia fechamento e encastelamento de grupos dentro da própria ALN,  não por motivos de segurança, que seria justo e louvável, mas por um conflito entre grupos da própria organização envolvendo militantes de vários estados brasileiros. O estado de São Paulo tinha uma postura de afastamento dos militantes do Rio de Janeiro e ambos em relação ao Nordeste brasileiro.

  Havia conflitos também que agravavam a falta de dinheiro para as operações. Alguns GTA’s não devolviam todo o dinheiro que tiravam dos Bancos para, indevidamente, comprar novas armas e assim ter mais poder de fogo,  o que tornava mais agudo o conflito. Havia um perigo eminente, causado pela falta de novos militantes, de furar todo o esquema de segurança. Num confronto direto com as forças repressivas mais facilmente seriam aberto os nomes dos militantes. As ações logísticas cresciam assustadoramente e já começávamos a perceber a mistura desse grupo com as ações do grupo tático armado. Havia um conflito nas lideranças maiores da ALN, principalmente entre Marighella e Câmara Ferreira. Ações de guerra deste último eram decididas sem a consulta ou anuência do Baiano. Isso provocou uma grande tensão no processo de crescimento da ALN no sul do país.

  Fechando todo estes sintomas, os militantes que foram designados para sair do país para fazer cursos de guerrilha não estavam preparados devidamente e com consciência política. Alguns tinham comportamentos,  nas casas onde estavam hospedados,  que não condiziam com a realidade que eles iriam enfrentar. A tal ponto que houve uma correspondência de Fidel Castro a Carlos Marighella, falando que nos exercícios de guerrilha na ilha de Cuba, os militantes da ALN tinham um comportamento não condizente com o que se estava esperando para enfrentar a volta ao Brasil: principalmente quanto ao desrespeito às militantes femininas cubanas presentes nos locais de treinamento. Todos estes sinais negativos definiam uma situação que iríamos colocar para Carlos Marighella na reunião da Rua Rocha.

  Do ponto de vista físico, Marighella sobressaía de outras pessoas pelo seu porte agigantado. Era uma pessoa que tinha uma estatura alta e a pele não negava sua origem negra. Tinha uma maneira de olhar muito aguda e tinha um jeito penetrante de abordar os diálogos com seus interlocutores. Andava sempre com uma peruca que lhe dava um ar jocoso, porque a peruca não condizia com os traços gerais do seu rosto e do seu corpo. Humanamente, era uma pessoa extremamente educada, gentil. Ouvia muito e se mostrava muito seguro nos argumentos quando falava. Tinha uma crítica muito aguda a toda uma vida de militância no PCB e no seu processo de saída.

  Tinha toda uma reflexão crítica à história das lutas populares aqui no Brasil, da qual ele participara desde o período da ditadura de Vargas. Tinha um conhecimento da área técnica por estar ligada ao período dos seus estudos com as ciências exatas. Era poliglota, dominava os clássicos,  embora pouco falasse a este respeito. Sua sensibilidade se derramava em pequenos atos por ocasião das suas visitas mais do que necessárias para o andamento da organização que dirigia, nas casas dos militantes da ALN. Lembrava do nome de cada filho do anfitrião. Tinha uma memória prodigiosa para guardar todos os nomes e se preocupava com o desenvolvimento pessoal e formação dos seus militantes. Tinha informação de cada pessoa que tinha conhecido e guardava detalhes de conversas ou situações. Segurança era sua preocupação constante no que se referia a tudo da organização ALN; era exigente e tinha muita clareza do que queria sobre este ponto. Mas, ao mesmo tempo em que exigia, tinha uma ousadia de estar em qualquer canto que fosse necessário da cidade de São Paulo ou Rio de Janeiro. Era visto pelos que o conheciam nos locais mais inusitados como praças do centro destas cidades. Ele não tinha medo desse tipo de locomoção desde que dentro de princípios de segurança que obedecia.  

No que concerne aos dominicanos, tinha um profundo respeito, sabia exatamente qual o papel do grupo de religiosos no processo de luta no Brasil, por isso respeitava sua religiosidade exposta, vivenciada várias vezes pelos frades. Chegou a estar presente em alguns atos litúrgicos, como a eucaristia, e notei nele um profundo respeito pelo que estava sendo vivenciado por parte da comunidade (num colégio de freiras) em relação ao ato cristão.  Já se teceu sobre ele, sua personalidade, páginas que já estão na história do Brasil e gostaria que a elas fossem acrescentadas o meu testemunho.

  Estou lembrando do discurso de José Eudes,  em 1983,  na Câmara Federal em Brasília,  numa homenagem que fez a Carlos Marighella, iniciando o discurso com um elogio de Jorge Amado à figura desse baiano: “Eu gostaria que fosse somado a esse perfil de Marighella, essa sensibilidade que caracteriza alguns seres humanos, algumas pessoas, a detalhes, inclusive a sensibilidade para a história de cada um e para a sensibilidade inclusive á natureza... também era um homem amante da natureza...”.

  Depois que pedi exclaustração à Ordem Dominicana,  para pedir depois a Roma a minha secularização e a volta definitiva à vida civil  passei a morar na Rua Rocha, em São Paulo, perto da Praça 14 Bis. Nesta, um antigo avião da FAB ficava espraiado no ar, seguro num pedestal, lembrando que houvera uma 2a. Guerra Mundial e que tínhamos aceitado aquele trambolho dos americanos. Ótima referência para achar logo a minha rua. Acharam-na  com rapidez vários companheiros fugidos de Pernambuco, Bahia e Minas Gerais e permaneceram alguns dias em meu apartamento esperando as ordens do co­mando nacional para viajar até Cuba,  via Uruguai.

  Nesse apartamento, minha primeira moradia depois da saída do convento, toda uma infra-estrutura tinha sido deixada por uma professora da PUC que fazia seu curso de mestrado na Europa. Nele permaneci mais de três meses, o tempo suficiente para habitá-lo e torná-lo mais agradável ainda. Um amor à primeira vista. Já tinha planos de permanecer nele por muito tempo,  comprando-o da sua proprietária quando ela retornasse ao Brasil. Seu espaço era realmente acolhedor e os dois quartos o suficiente para receber com conforto os amigos e companheiros de luta. Auxiliadora Ribeiro Pena, uma amiga,  irmã com espírito de Marta,  tinha providenciado sua limpeza e arrumação e me dado orientação precisa para ser um bom dono de casa contrariando meus costumes conventuais de ter tudo à mão e meu arraigado machismo nordestino.

  Foi na Rua Rocha que recebi meus primeiros amigos: Rafael Cantoni Neto e Carlos Augusto Strazzer que iniciava sua carreira teatral. Antônio Magalhães e Maria Silvia que moravam na Maria Antônia. Eram poucos, mas nos que eu confiava diante do perigo eminente corrido por todo o grupo no qual eu militava.

  Profissionalmente, estava saindo da Editora Duas Cidades. O Rafael, trabalhando na Editora Abril acreditava que eu me daria bem na criação de textos para as Revistas Técnicas. Sabia, morando 10 anos nesta megalópole, que tudo só chegaria profissionalmente com muita luta e eu estava começando tarde, com 29 anos. Tinha que correr. A minha afirmação e qualificação no trabalho exigiam mais tempo pessoal e como eu não desejava cair na clandestinidade iria, temporariamente, restringir minha prática política.

  Frei Ratton veio me pedir socorro. Teríamos que fazer uma reunião urgente com Marighella. A situação estava esquentando para todas as organizações e particularmente para a ALN. Muitas quedas de casas e apartamentos seguidas de várias prisões. Na livraria Duas Cidades o ponto de táxi continuava a não querer aceitar corrida dos fregueses eventuais. Naquele dia em que Ratton fez o pedido eu tinha recebido a visita,  na livra­ria, de Bradie Tyson, pastor metodista, pretensamente expulso do Brasil por suas ligações e penetrações na maioria dos grupos e organizações de esquerdas do Brasil e um dos carros-chefes do movimento ecumênico em São Paulo.

  Tinha voltado a São Paulo (e ao Brasil), com uma carta de Dom Helder em mãos, para servir de apresentação e preparar a chegada da viúva do Martin Luther King. Recebi-o friamente. Seu nome já tinha saído na lista dos possíveis agentes da CIA para a América Latina, publicado pelo Jornal “Movimento”.

-“Sei que você não acredita em mim diante das acusações em jornais sobre minha pessoa”- falou Bradie depois de dar explicações da sua vinda ao Brasil .

-“Onde tem fumaça, tem fogo- respondi friamente- até prova ao contrário eu acredito nos meus companheiros do Jornal”.  Foi uma visita curta e grossa.

  Combinei com Frei Ratton para um dia daquela semana à noite. No dia marcado chega­ram os frades ao meu apartamento: Magno, Ratton, Ivo e Fernando. Lembremos que Osvaldo já estava na Europa para preparar a infra-estrutura internacional da ALN e da guerrilha brasileira. O Baiano, como costumávamos chamar o Marighella, tinha ficado de chegar às 19:30 horas e era pontual. O ambiente estava carregado e tenso e muito silencioso na sala do meu apartamento. Na hora marcada ouvimos a campainha do aparta­mento em cima do nosso, no segundo andar. Esse ritual se repetiu por alguns longos mi­nutos. Ratton,  branco, correu para o segundo andar,  comendo a escada em passadas rápidas e largas. Tinha dado o número do apartamento errado. Esbaforido e puto da vida, Marighella assomou-se à porta do meu apartamento acompanhado de uma companheira e de Ratton. Depois das explicações e das desculpas dos frades, o Baiano arrumou tempo para guardar o seu revólver que ainda estava em sua mão para o que desse e vi­esse. Engatilhado.

  A companheira que veio com ele trouxe cédulas de identidade, pois trabalhava em um órgão público paulistano e estava encarregada de arrumar o que fosse necessário para que nosso grupo falsificasse as identidades daqueles que saiam do país pelo Sul. E eram dezenas os necessitados. Já tínhamos as fotografias  providenciadas pelo nosso fotógrafo Penafiel.

  Fernando se apressou para dar as últimas: -“Tivemos um contato com Dr. Madeira, preso no DOPS desta cidade que, aproveitando uma situação grave de saúde de seu pai hospitalizado por conseqüência de um derrame, tinha recebido uma licença especialíssima para visitá-lo. Um dos nossos padres mais velhos for visitá-lo e ouvi-lo. O médico preso transmitiu a notícia de que,  com a queda de Paulo de Tarso do GTA e a descoberta da sua caderneta de endereços estavam abertos os nomes de Fernando, Ivo e o telefone do Convento das Perdizes”.

  Marighella ouvia  tudo atentamente. Fizemos um relato da nossa situação como apoio logístico e como nossos nomes começavam a se escancarar na boca da maioria dos militantes da ALN e de outras organizações, furando todos os limites de segurança. Se antes os quadros já escasseavam, com as quedas nos GTA’s (Grupos Táticos Armados), a maioria dos quadros paulistas nos procuravam para atendê-los em tudo. Mostramos ao Baiano que já estávamos abertos à repressão com o perigo de cair colégios, conventos de frades e freiras que guardavam materiais de apoio, local de reuniões e até hospital improvisado. Sem contar com as dezenas de carros e casas de todos os amigos que estavam fieis a nossa luta como dominicanos e que, sabendo de tudo, participavam conosco de várias ações.

  Discutimos também a queda do Bacurí e a carta que  Osvaldo  tinha enviado da Europa relatando os encaminhamentos de seu trabalho. Esta carta encontrada com o Bacuri, e publicada pela repressão nos jornais do país,  aumentaram nossas apreensões. O nome frio utilizado pelo Osvaldo não impedia que tivéssemos a certeza de sua autoria: Seu último parágrafo fazia uma alusão a uma garrafa de vinho francês que enviava ao Velho (To­ledo). O gastrônomo e enólogo se traía.

  Após um breve informe sobre os andamentos práticos, inclusive de como arrumar novos passaportes, Marighella falou:  -“As últimas quedas, o caráter mais independente do Comando da ALN em São Paulo nas mãos do Toledo me levam a tomar uma atitude mais drástica diante da gravidade da situação em que ficaram os dominicanos. O papel de vocês, de apoio a guerrilha brasileira, não poderia nunca desembocar numa ajuda tão efetiva na área de apoio logístico urbano, mas era o de dar todas as informações e fazer o levantamento do Araguaia. E isso já foi feito. Resta uma preparação do nosso povo através da vossa pregação, na cidade e principalmente no sertão do Araguaia. Este desvio de estratégia revolucionária da nossa organização me leva a tomar uma decisão. A partir deste momento vocês ficarão ligados ao Comando Nacional e à minha pessoa particularmente. Desobedecerão qualquer ordem advinda do Comitê Estadual”.

  À saída abordei o Baiano e expliquei porque morava naquele apartamento, mostrei minha situação recente de saída de uma vida religiosa de 10 anos e o impacto de tudo isso na minha pessoa. Precisava me organizar interior e profissionalmente. Pedi um ano de afastamento.  A resposta veio rápida: -“Compreendo perfeitamente o que se passa contigo, caboclo, e depois deste período confio na tua reintegração e que tenhas sempre em vista teu papel na revolução brasileira. “Foi a penúltima vez que o vi naquele mês de setembro de 1969. Na última só nos falamos com os olhos,  numa passagem inesperada pelo Largo do Arouche bem perto da Livraria Duas Cidades. Sempre com aquela peruca horrorosa.

  Entrei no mês de outubro fazendo testes para a Editora Abril. O desligamento da organização não se fazia de modo tão rápido como eu pensara. O fato de continuar na Editora Livraria Duas Cidades e o sufoco que frei Fernando sentia diante das solicitações e responsabilidades no andamento do processo de luta me levaram ainda a algumas tarefas. Não acompanhava o andamento de todas as reuniões e contatos,  mas guardava em minha casa todo o arquivo com os textos de cada organização de esquerda brasileira desde 1963.

  Nesta época atribulada, Tiana me procura na Editora com suas fotografias para agilizar um passaporte,  deixando-a pronta para qualquer eventualidade. Ela tinha sido da Juventude Universitária Católica (Equipe Nacional) após minha passagem pela equipe nacional de Ação Católica, e já tinha se desligado da Ação Popular e não encontrava acolhida nas organizações existentes. Nesse ínterim, depois de estudado seu caso, os frades não acha­ram necessário abrir o contato da ALN para ela. Eu ficaria intermediando. Bastava ajudá-la naquilo que mais a preocupava.

  Estávamos em pleno AI-5 (Ato Institucional do Governo Ditatorial) e já tínhamos enxergado que minimizávamos demais os órgãos de segurança. As quedas continuavam.  Um amigo da Editora Abril me convida para passar os feriados de 01 e 02 de novembro em Iperoig. Uma intuição me levou a picar durante horas todo o arquivo de documentos e com alívio vi os lixeiros, que passavam às 21 horas pela Rua Rocha, levá-los em sacos plásticos e colocá-los naquela estrovenga que tritura e leva a massa compactada para o interior do caminhão. Restou o último documento da ALN e os retratos que Tiana tinha me dado. Coloquei-os num envelopão e enfiei na tubulação de gás no banheiro.

Após o passeio no litoral com o Rafael Cantoni chegamos à São Paulo no dia 02 de novembro a noite. Na manhã de segunda feira fiquei me preparando para assumir o novo trabalho na  Editora Abril na terça feira. Olhei meu apartamento e nele enxerguei objetos bem pessoais e fotografias que indicavam eu ter tomado posse do espaço e já sentia minha presença . Minha primeira casa,  depois de 10 anos. À tarde fui assistir o Teorema de Pasolini e me apaixonei tanto pelo filme que assisti mais duas sessões. Ao chegar às 22 horas recebi o telefonema dos manos Ribeiro Pena (Antônio e Auxiliadora) : -“João, venha o mais rápido possível porque seus irmãos Fernando e Ivo ainda não chegaram. O Edson (prior do Convento) está conosco. Ratton também”.

  Peguei o primeiro táxi que passou pela 9 de julho e fui direto para a Rua Ouro Preto,  no Jardim Europa, perto do Shopping Iguatemi. No caminho algo me dizia  que a situação nossa se agravava e agora envolvia os dois frades. Se viajaram,  eu não tinha mais o controle das locomoções dos companheiros pois não me avisavam mais. Encontrei um clima de muita tensão e pânico. O frei Edson veio avisar que o Convento das Perdizes estava  cercado pela polícia. Frei Ratton confirmou a viagem dos dois frades ao Rio e eles não tinham dado o sinal combinado de que estavam seguros. Tudo indicava que tinham sido presos.

  Falei: -“Vamos lá nas Perdizes para confirmar”. Ratton achou que não era prudente e se esqui­vou. Auxiliadora pedia por tudo para que seu marido não fosse. Em frações de segundos Antônio, eu e o Edson estávamos com o motor do carro ligado e nos encaminhamos para Rua Caiubi. Lá confirmamos tudo. Rodamos o quarteirão e dezenas de carros indicavam a presença, dentro e fora do convento, de policiais. Não tivemos outra alternativa senão sairmos o mais rápido possível do bairro e nos encaminharmos para a Avenida Paulista,  via Pacaembu.

  Antônio lembrou: -“Vamos avisar o Roberto Pereira e o engenheiro Manuel”. Eu respondi:-“Não acredito que os dois frades tenham dado os nossos nomes e temos até amanhã para que eles abram as nossas residências segundo as regras de segurança da ALN. Quanto a Roberto (e já tínhamos passado na porta do seu edifício e tínhamos parado para refletir se avisaríamos a ele ou não) o pai teve uma trombose e nem de longe imaginava o engajamento político do filho. A essa hora da noite suscitaríamos dúvidas com nossa visita,  que teria conseqüências imprevisíveis para sua saúde. -“Deixem-me em casa que amanhã avisaremos aos dois e prepararemos uma possível saída do país”, disse eu .

  Entramos na Rua Rocha pela praça. De longe avistei dois homens na minha porta. Avisei a Antônio que estava dirigindo: - “Parem na porta do edifício e eu salto. Depois que derem a volta no final do quarteirão e retornarem, terei mais segurança quando passarem de volta pela frente do prédio.

  O carro do mano já se distanciava e eu de posse da minha chave já ia abrindo a porta do prédio quando, abordado pelos dois homens recebi  a primeira pergunta: -“ Você mora neste prédio? “-“Sim, - respondi, querendo tomar pulso da situação. -“Conhece alguém com o nome de Maurício? -“Não “- respondi

-“Como é seu nome ? “. -“João Antônio”. -“Mostre-me seus documentos”. Com cuidado tirei minha carteira com meu nome civil e empurrei a outra , com o nome religioso para dentro do bolso. Enquanto abria a porta e começava a entrar ouvi o esperado: -“O sobrenome é o mesmo. Esteja preso! “.  

Imediatamente me levaram para uma perua Chevrolet juntamente com Edson e Antônio depois de fazê-los parar o Wolks que dirigiam ao passar de volta pela entrada do prédio. Mais carros, em questão de segundos, se juntaram a comitiva, todos armados de metralhadoras e fuzis. Antes da minha chegada, um grupo procurou uma escada na vizinhança para galgar, por traz do edifício, até o primeiro andar onde estava situado um janelão que dava para minha sala. O delegado que me prendeu,  depois de pedir a chave e enviar dois auxiliares para vasculhar minha casa perguntou: -“Sabe por que está sendo preso?” Depois de responder um não e receber uma tapa na cara, retrucou: - “Vais saber daqui a pouco”.

  A saliva já tinha desaparecido da minha boca, que mais seca ficou quando os dois investigadores chegaram com os documentos da ALN e o retrato de Tiana (com o nome escrito atrás)  e minha caderneta de endereços que ficava debaixo do telefone. Não preciso dizer que já estavam de posse de vários objetos e continuariam a rapinagem no decorrer dos outros dias (cortes de tecidos, roupa de cama, livros, etc.)

O trajeto ate o DOPS, prédio soturno,  parecendo antiga fábrica,  situado entre a antiga rodoviária e a estação ferroviária, foi rápido o suficiente para nos entreolharmos poucas vezes. Entramos pelo lado esquerdo do prédio onde havia um grande portão de ferro e fomos direto para o 3o andar para uma sala que saberíamos depois ser do delegado Cintra Bueno. Seu superior tomava o seu lugar atrás de uma escrivaninha antiga e pesada e à sua frente, irreconhecíveis como resultado de sessões de tortura, estavam Frei Fernando e Frei Ivo Lesbaupin. Depois dos policiais falarem que eu era “quente” e que até aquela hora não sabiam, os dois frades me pediram cigarros e ao oferecê-los percebi que tinham pouquíssima capacidade motora. Suas roupas manchadas de sangue coalhado compunham um quadro aterrador, para mim, olhando várias partes de seus corpos inchados e macerados.

  As perguntas do diretor do DOPS entrarão de roldão em meus ouvidos: “Não adianta mentir para nós porque já sabemos de tudo. Queremos apressar o trabalho e saber dos endereços de algumas pessoas do grupo de vocês como o engenheiro Manoel e Roberto Pereira, Penafiel, etc,etc. Se não der será pior. Veja o estado que se encontram os dois frades.”

A minha recusa  e a afirmativa de que não sabia do que estava acontecendo gerou uma animalidade da parte dos que me prenderam e me arrastaram pelos cabelos pelo longo corredor daquele andar  e por uma escada tivemos acesso a um pavimento intermediário e meio escondido onde estava situada a câmara de tortura. Uma sala de quatro metros por dois. À vista tinha uma “cadeira de dragão”, que era uma cadeira de braços com espaldar alto, toda revestida de metal, talvez alumínio, que transmitia com mais facilidade a eletricidade que era enviada à cadeira quando se acionava uma chave que ficava em cima de uma das mesas da sala,  para que fosse acionada por um dos torturadores. Nos seus braços e pernas tinha arreatas de couro  para segurar a pessoa,  para que esta não fosse projetada, nos períodos de interrogatórios ou sessões, com a intensidade do choque,  à pa­rede ou ao chão da sala 

  Imediatamente me tiraram a roupa e me colocaram em uma poça de mijo e fezes provavelmente dos que me antecederam.  Amarraram-me com grossos cordões nas mãos e pés e me fizeram levantar com um travessão que me deixaram pendurado no famoso pau-de-arara, entre duas mesas. Davam-me choque nas partes mais sensíveis do corpo, acionando uma maquininha que tinha um barulho muito especial como se fosse uma matraca de semana santa. Eu tinha entrado nessa sala com um dele­gado e dois investigadores. Justamente o delegado que tinha ido no convento conversar comigo uns meses antes e que relatei mais acima.  

 As perguntas se fizeram mais contundentes e eu procurava manter um equilíbrio emocional para avaliar o que já tinha sido “aberto” pelos meus dois companheiros frades. Guardaram as 48 horas de silêncio exigi­das pelo código da organização ALN,  mas abriram nomes e ações que levaram a um fio de meada de que eu não sabia das conseqüências. Depois de meia hora de seção de pau-de-arara recebendo choques no ânus, na boca , nos ouvidos, nos pés e em todas as partes do corpo, foram me colocar na cadeira elétrica. Quando estavam atando as arreatas nos meus braços e pernas, entra Frei Tito com o Sérgio Paranhos Fleury, o delegado. E nós dois passamos a ser torturados juntos. Queriam porque queriam que nós confessássemos todo o projeto em andamento da ALN e a participação nossa na organização. Eles já estavam sabendo de muitos detalhes e tinham uma espécie de roteiro quando nos inter­rogavam. Perguntavam por nomes, o engenheiro Roberto, o engenheiro Mané, e muitas outras pessoas que faziam parte do nosso grupo de apoio, dando a entender  que alguns nomes e alguns trabalhos foram abertos pelo Ivo e Fernando.

  Conseguimos um momento de respiração porque a sala era pequena e chegava uma leva de companheiros para serem torturados. E tinham pressa e estavam perdidos e estressa­dos. Era muita gente para ser interrogada naquela madrugada. A caderneta,  já na mão de um dos delegados que me prendeu era lida e alguns nomes se evidenciava, entre eles o de Tiana e seu esposo,  um médico curitibano. Frei Tito,  de cabeça baixa,  não se respeitava por ter aberto o nome de um antigo militante do PCB, que tinha passado para a ALN e era porteiro de um prédio de apartamento: Rabote, o cearense.

  Às quatro horas da manhã me pegaram com Frei Fernando e nos levaram para prender algumas pessoas que moravam do lado de Pinheiros. Logo depois pararam no endereço de Tiana. Estava evidente não só que iam prendê-la como acusar-me como dedo duro e minar meu equilíbrio emocional e psicológico. A dor dessa mãe em deixar o filho que amamentava foi muito grande e me deixou tocado. Voltamos ao DOPS, lembro que ao saltarmos no portão e sairmos já era dia e vários trabalhadores passavam. Olhei para alguns tentando falar com meu silêncio o horror e desespero que nos avassalava.

  Eu,  Tiana e o marido fomos le­vados a uma outra sala de tortura, mais limpa . Ela foi torturada na frente do esposo, no pau-de-arara. Fleury notou que ela estava relaxada,  fruto das técnicas de Ioga e começou a denunciar isso pedindo para aumentar a intensidade dos choques. Sua experiência como torturador o levou à conclusão de que pessoas com exercício de técnicas orientais agüentavam mais a tortura e as dores. Tiana não respondia nada. Apenas rezava o Credo inúmeras vezes,  até não agüentar mais e desmaiar. Levaram-nos para o mesmo andar que entramos à noite e onde tinha o salão nobre do DOPS. Ficamos em uma sala que não tinha móveis.  

Pouco a pouco foram se juntando a nós todas as pessoas que tinham sido presas naquela madrugada. Todos os frades que pertenciam ou não ao grupo menos Ratton e Magno que depois conseguiriam fugir do país. Foram presas boa parte das pessoas que trabalhava conosco no apoio logístico. Entre eles Rabote, amigo de Tito que o consolava mostrando que já tinha tido experiência de prisão no período de  ditadura de Vargas. O importante era voltar a ter força para não abrir mais do que foi aberto. Os militantes mais velhos nos aconselhava a juntar os cacarecos do que foi aberto e construir uma história para dela não sair . Mesmo sendo torturado. Quando mais abríssemos seria pior.

  Descemos ao porão onde ficavam situadas as celas. E foi aí que começou uma nova experiência de tensão continuada, um novo inferno, a começar pela ousadia e ignorância dos investigadores que passeavam pela carceragem e corredores das celas para abusar com um com outro que viam no interior dos tugúrios. Existia todo um esquema de corrupção e suborno, começando por roubar os objetos que estavam sob nossa posse como reló­gios, canetas, carteiras, dinheiro, etc. Deixaram-nos apenas com a roupa do corpo e sem o cinturão  e qualquer objeto cortante  para que nós não pudéssemos nos suicidar.

  Ao chegarmos à carceragem deparamos na primeira cela com Padre Augusti, cela em  que ficariam Freis Fernando e Ivo posteriormente, separando-os de nós, que ficaríamos no corredor na cela 4.  Ele tinha sido assistente da Juventude Universitária Católica em São Paulo e tinha sido preso porque era fiel a um compromisso pessoal  de lutar na sua nova arquidiocese onde estava incardinado,  no  interior do estado,  contra a ordem ditatorial vigente. Lutava também contra o bispo, seu superior, que era bastante sectário e contrário a toda essa luta de libertação. Estava do lado dos militares.  O padre Augusti estava em uma situação aterradora e com a saúde abalada por causa das torturas. Aí estava também Diógenes de Arruda Câmara, um dos dirigentes máximos do PC do B,  trinta anos secretário geral do PCB e que tinha chegado da OBAM, que era um centro de tortura montado pelo exército, perto do seu quartel general no Ibirapuera e subsidiado pelos industriais e comerciantes de São Paulo que estavam aliados aos militares.

  Na cela 3 ficaram alguns companheiros nossos com alguns marinheiros da Marinha Mercante que estavam presos,  trazidos do Rio de Janeiro para averiguações. Fomos alertados para não conversarmos muito com eles porque poderiam ser olheiros da repressão. Lembro-me que um deles chegou a me confidenciar que tinha uma banca de jornal e revista em local movimentado do Rio e tinham roubado tudo. No final do corredor estava o advogado Heitor, acusado há vários anos pela revista Cruzeiro como assassino de Dana de Teffé para tirar a sua fortuna, mas nunca se achou o corpo da vítima. Estranhamente encontramos presos comuns  no meio dos presos políticos, o que só tinha uma explicação: a Impunidade das autoridades. Seriam colegas nossos na prisão também portugueses,  indianos e espanhóis que eram presos a pedidos das ditaduras dos seus respectivos países.

  Numa cela mais atrás da carceragem do DOPS, todas as mulheres, companheiras, estavam presas, inclusive uma companheira que tenho o maior carinho e que pertencia à ala trotskista e que me deu uma grande ajuda  e grande presença na minha vida quando eu estava no meio universitário da rua Maria Antônia . Chamava-se Marli e tinha sido mulher de um amigo comum, Pedro Piló Alexandrino,  que depois foi torturado até a morte nas guerrilhas do Araguaia. Até hoje o governo brasileiro não achou a sua ossada. Essa mulher que teve uma atuação muito importante nas passeatas de 1968 foi transferida para um presídio do Rio de Janeiro. De lá, enviava para mim roupas de lã para eu agüentar o rigor do inverno no Tiradentes.

  Passávamos por situações incríveis, a come­çar pela infra-estrutura das celas, cheias de sujeira, apertadas, convivendo com moscas, percevejos, baratas e pulgas. Pela quantidade de seus habitantes éramos obrigados a re­vezar para podermos descansar e dormir depois das torturas do dia (ou da noite). Tínhamos que nos acostumar com os lamentos das pessoas que vinham da tortura arrasta­das pelos carcereiros e ajudadas pelos companheiros. Á noite, os gritos de pessoas nas salas de torturas chegavam aos nossos ouvidos. As chacotas dos investigadores que não deixavam de mexer com cada prisioneiro.  

Com o correr dos dias, aprendemos todas as maneiras de entrar em comunicação com os parentes através do suborno dos chefes de carceragem e dos investigadores que nos traziam cigarros, comida, roupas e material de higiene. Nada que provocasse perigo em termos de integridade física contra nós mesmos. Os mais velhos sempre nos ajudaram  a nos mantermos  calmos, em reflexão constante para que não tirassem de nós informações preciosas. Foi checado tudo que tinha sido aberto. Bilhetes iam e vinham entre as celas. Frei Fernando e frei Ivo historiavam tudo o que ti­nha sido falado durante os dois dias de tortura: nomes, locais, o que fizeram, o que as pessoas que estavam ali presas fizeram. Um novo núcleo narrativo se enros­cava no que tinha sido  aberto até aquele momento.

  No segundo dia de prisão, à noite, depois de termos passado o dia nos acomodando e conversando,   eu estava exausto e fui dormir logo que a noite chegou. O estado emocional pedia trégua e não tínhamos idéia do que aconteceria no dia seguinte. Acordei de madrugada com uma grande anarquia na carceragem do DOPS,  provocada pelos investigadores, todos bêbados e alegres... gritavam que frei Fernando e frei Ivo  tinham entre­gado Marighella e que este já estava morto. O que nos deixou inteiramente aterrorizados e em pânico.  

Realmente,  os dois frades saíram no começo da noite e só chegaram de manhã cedo para entrar nas suas celas.  As reações dos companheiros presos foram as mais di­versas. Alguns pensavam que tudo aquilo era uma farsa e uma grande mentira.  Outros ficaram arrasados porque acreditavam que aquilo que estavam ouvindo tinha acontecido. Fernando ficou na cela com Padre Augusti e passou vários dias num puro silêncio. Ivo acompanhava-o. De manhã cedo nos tiraram da carceragem um por um para passar­mos pela seção de datiloscopia,  na qual nossos dedos sujos de tinta imprimiam suas marcas nas fichas. Retratos foram tirados de cada um de nós enquanto os investigadores se divertiam falando que estávamos tocando piano.

  Os marinheiros que estavam na nossa cela foram transferidos para o Rio de Janeiro,  o que nos deixou mais confiantes para conversarmos mais detalhadamente sobre os fatos. A comida vinha no chamado camburão e era de péssima qualidade. Para tirar os nacos do prato de plástico com odor de mal la­vados era necessário usarmos nossas carteiras de identidade, pois continuávamos sem nenhum instrumento cortante,  para continuar salvando a nossa integridade física.  Descobrimos algum alento lendo os grafites que existiam nas paredes da prisão. Os companheiros que nos antecede­ram não só davam sinal de sua presença, colocando seu nome e a data que tinha passado por ali, como também escreviam poemas, pessoais ou de brasileiros e mesmo de companheiros de outras nacionalidades como Brecht, ou Mao Tse Tung.  Poemas que serviam para alimentar nossas reflexões, nos dar força, alento. Poemas que diziam do companheirismo e da amizade apesar de todo o inferno que estávamos passando.  

Quando voltávamos da tortura os companheiros já estavam esperando com palavras de alento, de cari­nho, de cuidado com nosso estado biológico, físico, emocional. Novas reuniões eram feitas, os padres celebravam a eucaristia, inclusive com a presença das companheiras que vinham à nossa cela. Nessa hora, a porta aberta pelo carcereiro, aproveitávamos para checar as histórias abertas.

  Poucos dias tinham se passado e chegaram de Porte Alegre,  presos,  o frei Betto e o Padre Marcelo Carvalheira (hoje bispo no Nordeste) e um padre gaúcho chamado Valiente. A polícia achava que os dois estavam envolvidos com o Betto porque este estava abrigado na paróquia do padre gaúcho. O  padre ficou preso conosco durante um ano no presídio Tiradentes e ficou na cela 4, sempre inconformado. Notícias nenhuma do exterior chegava até nós e enviávamos cartas e bilhetes através de companheiros que conseguiram sair,  porque as autoridades não encontraram nada que pudesse enquadrá-los. Enquanto isso uma pressão internacional ia se formando contra as nossa prisões.  

Um fato importante que me marcou muito foi quando nos avisaram (aos frades) que tí­nhamos que  nos barbear porque vinha nos visitar o cardeal de São Paulo. E os frades, um a um , fizeram a barba na frente de um policial para que não usássemos a lâmina da gilete impropriamente cortando os pulsos ou a carótida. Depois deram-nos cordões simples de algodão para que servissem de cinturão e nossas calças se segurassem apropriadamente. Estávamos alegres. Pela primeira vez iríamos conversar com uma pessoa importante quebrando nossos únicos contatos  que eram pessoas daquela ordem policial vigente no DOPS.  

As primeiras pessoas que subiram fomos eu e o Giorgio Callegari e descobrimos que tinham preparado uma farsa para nós. Nos levaram para o último andar do prédio, onde  em cada sala líamos, ao passarmos pelo corredor, em cada porta fechada, a especialidade em que os burocratas se ocupavam:  setor universitário, setor operário, setor camponês. Ali se acumulavam especializadamente as informações de setores da nossa sociedade. Colocaram-me na sala do setor universitário,  enquanto o Giorgio Callegari ia para uma outra sala,  e eu ouvi quando ele se esperneou não querendo responder um interrogatório que estava dirigido à pessoa dele. 

Um medo imediatamente se apoderou de mim, como em todas as sessões de tortura o medo se apodera das pessoas. Quando o Giorgio saiu não me deixaram falar com ele; eu entrei naquela sala, era um cubículo com um bureau na minha frente. Colocaram-me sentado numa poltrona com um delegado ao meu lado e, no meio de refletores eu enxerguei em cima da mesa um equipamento sofisticadíssimo e pequeno de gravação em vídeo. Não eram os trambolhos que usavam para fazer “vídeo tape” nas televisões da época.

  Câmeras diminutas nunca vistas se acoplavam ao equipamento que estava em cima da mesa à nossa frente. Na contraluz consegui enxergar vultos de umas cinco ou seis pessoas no fundo da sala. Então o delegado me deu um papel com perguntas e respostas para que eu lesse cada pergunta e cada resposta e respondesse exatamente como estava naquele papel. Eu li as duas folhas datilografadas, e vi que não pesavam sobre mim grandes coisas,  mas colocaram naquele script alguns fatos sobre os quais eu não tinha falado e que eles deviam ter se apropriado de outras pessoas. Comecei a ter cuidado. A cada pergunta eu respondia ou de modo vivaz e a ser bem entendido ou intercalava com intensidade tal que a gravação ficaria comprometida. Deram-me um cigarro, brincaram, dizendo que era para que eu saísse melhor e bem disposto nas imagens.

  Qual foi minha surpresa quando um americano dirigiu-se a todos em inglês sobressaindo de todos os vultos que eu mal distinguia na contraluz  gritando:

-“Não estão notando que ele está querendo boicotar toda a gravação! Que mandassem eu falar alto e em bom tom respondendo a todas as perguntas. Não repetiram as perguntas anteriores e eu logo cheguei ao fim daquele interrogatório gravado. Descemos bufando eu e o Giorgio Callegari  para a carceragem,  dando tempo para avisar aos outros o que estava sendo preparado para eles naquele último andar do DOPS. Assim subiram os frades, em dupla para serem filmados. Soubemos depois que esse programa saiu uma vez nas televisões brasileiras  querendo mostrar a que  ponto os dominicanos tinham implicações na sua luta contra o regime, servindo de contrapropaganda.

Na década de 70 encontrei amigos do meu pai, empresários de ônibus, e que faziam parte da comunidade de informação, que tinham cópia desse programa.

  Outro acontecimento foi a chegada de Roma do representante do Vaticano, frei Couesnoungle  que tinha sido nosso professor de teologia na nossa escola de Teologia no Brasil. Tinha sido enviado pelo Secretario de Estado, Mgr Veuillot. Numa determinada noite fomos chamados e novamente fizemos a barba e nos deram roupas limpas. Falaram novamente que iríamos receber a visita do cardeal de São Paulo. Nova­mente subimos dois a dois. Eu subi com frei Tito e outros frades tinham nos antecedido. Nos introduziram na sala nobre daquela autarquia com decoração muito pesada. Muita madeira, recordo um papel de parede vermelho e enfileirados numa altura de cada lado da sala todos os ex-diretores do DOPS, pintados à óleo. Num conjunto de poltronas entre os vários ambientes que compunham a sala, estava D. Agnello Rossi com três diretores da casa que o cercavam. Sentamos cada um de um lado de D. Agnello. Os delegados imediata­mente e inusitadamente, para intimidar o cardeal levantaram-se e disseram: - “Ah! Sr. Cardeal me desculpe, mas existe um cisco no seu nariz (e cutucaram o nariz do cardeal). Ah! Desculpe novamente Sr. Cardeal. Era apenas uma réstia de luz e nós nos enganamos”.  

Eu e Tito,  silenciosos,  olhávamos espantados para aquela situação cômico trágica que pesava no ambiente. Depois que os delegados, cinicamente, afirmaram sua fé e confirma­ram seus estudos em colégios católicos (beneditinos e maristas) e se disseram bons cristãos,  pediram que nós conversássemos na frente deles com o senhor cardeal. O frei Tito dirigiu-se a D. Agnello Rossi perguntando como tinha sido o sínodo dos bispos no Vaticano recentemente realizado. Este respondeu friamente e logo virou-se para os delegados como que continuando uma conversa interrompida com nossa entrada na sala:

  - “É necessário uma intervenção naquela Igreja do pastor Manoel de Mello, pois por ser grande arquiteturalmente na região do Bairro Pompéia, não só chamava a atenção como um número maior de neófitos estavam entrando naquela sociedade religiosa. É importante que o estado veja que está ajudando a este desvio cristão esquecendo dos compromissos com a Igreja Católica! (sic). Respondi ao Sr. Cardeal: “Se o Espírito Santo estava presente na Igreja de São Paulo, deveria estar presente sobretudo na Igreja do pastor Manoel de Mello”. Rispidamente  virou-se para mim e perguntou:  “... foi encontrado em seu apartamento roupas de mulheres...e quero saber qual vida você leva. “

Respondi: -“Enquanto fui sacerdote de vossa arquidiocese, eu nunca fui visitado por vossa senhoria para poder ser interrogado sobre a minha vida e agora que já pedi licença par sair da minha comunidade, eu não tenho responsabilidade de dar contas da minha vida a chefe nenhum da Igreja Católica. “ O ambiente ficou sufocante e os delegados pegaram nos nossos braços indicando que aquela visita tinha terminado. Perguntaram antes se nós não íamos agradecer a visita do cardeal. Respondi: -“... Bem aventurados aqueles que visitam os presos, principalmente os presos que têm sede de justiça. Ganharão um pedaço do céu...”

  Tiraram-nos rapidamente da sala e na ante-sala que dava para o corredor, conhecida por mim na noite em que me prenderam, nos avisaram: -“ Na próxima sala que vocês vão entrar estará presente o representante do papa. Tenham cuidado com os afagos e beijinhos que os franceses gostam de brindar”. Depois ficamos sabendo que o frei Couesnoungle, tinha visitado o cardeal naquela tarde e tinha avisado,  por uma questão diplomática de praxe,  que iria nos visitar à noite. Ele sabia exatamente qual era o pensamento da autoridade religiosa católica de São Paulo e quão limitada era sua cabeça. Pouco depois deste episódio o Vaticano,  para re­movê-lo teve que dar um bom cargo em Roma. Existe um provérbio clerical que diz que para remover é necessário promover. O cardeal armou com a direção do DOPS sua visita na mesma hora para intimidar o representante do Vaticano e referendar sua anuência juntos as autoridades brasileiras. Um vexame!

  Quando entramos na sala fomos recebidos efusivamente pelo nosso antigo professor de teologia e pelo frei Gorgulho que tinha sido nosso professor de Teologia Bíblica. Na mesma sala que vi pela primeira vez o Frei Fernando e frei Ivo depois de serem terrivelmente torturados. Estava sentado em pesada poltrona de couro na nossa frente,  numa atitude de intimidação,  mas tão insignificante como seu tipo físico,  o delegado Cintra Bueno, representante da burguesia paulista naquele tugúrio e antigo aluno seminarista de teologia em Roma. Frei Couesnongle em alto e bom tom falou em francês conosco:  - “Não se intimidem, vocês estão ouvindo o som que parte da outra sala com a gravação da conversa que tivemos com os religiosos que os antecederam. Coragem e vamos conversar abertamente.”

  Senti de imediato a esperteza do Vaticano em nomear Couesnongle: Era dominicano, tinha estado no Brasil, vinha com autoridade, e tinha participado da resistência francesa na segunda guerra mundial contra os nazistas que ocuparam o seu país. Tinha consciência de todos os meandros e perigos de uma ditadura. Sabia de todos os perigos que está­vamos passando. Daí a raiva e a ira dos delegados e, em especial, de Sérgio Paranhos Fleury, de não poder pegá-lo aqui no Brasil. Estava de posse de um passaporte diplomático e tinha  imunidade diplomática. O governo ditatorial tinha que preservá-lo para não haver maior repercussão internacional. Mais do que já estava sofrendo com nossas e outras prisões.  

Cintra Bueno, cinicamente, só fazia olhar e ouvir. Denunciamos tudo o que tinha se passado conosco, eu e o Tito, e também o que estava acontecendo na carceragem. Frei Couesnongle nos pediu que tivéssemos força, coragem, pediu a verdade, pediu que contássemos toda a verdade, o que realmente estava acontecendo.  Os que nos antecederam também tiveram coragem.  

Cintra Bueno precisa ter sua memória resgatada como um dos fenômenos aberrantes da ditadura. Sua sala era o epicentro da comunidade de informação ligada a igreja e vimos vários religiosos e religiosas adentrarem no seu recinto para levar informações. Inclusive chegavam às suas mãos gravações de todas as discussões nas reuniões e assembléias da CNBB em Itaicí, no interior de São Paulo . Sempre estava rodeado de militantes da TFP (Tradição Família e Propriedade), entidade ligada a Plínio Correia de Oliveira e ao bispo de Campos (hoje já falecidos). Chegavam com rascunho e rabiscos de pregações dos padres das igrejas de São Paulo. Era o Cintra Bueno que nomeava os padres que seriam capelães militares. Todos com forte ideologia de direita e que andavam pelos cárceres, alheios às torturas e misérias e injustiças; procurando desajudar as pessoas presas e torturadas.  Lembro que foi designado para nós, por ele, um capelão da cidade de Santos e que nos dava nojo com a sua conversa, sua raposice, sua maleabilidade a se adaptar a qualquer situação. Tínhamos certeza que não era humano. No mínimo faltava a coragem para denunciar tudo aquilo que quotidianamente via naquele espaço.

  Ligado a Cintra Bueno estava o assessor e articulista d’O Estado de São Paulo, Lenildo Tabosa Pessoa que eu já conhecia dos finais dos anos 50, quando era militante de JUC, recém chegado da teologia em Roma. Nesta época conhecia bem e era um apologista  dos romances de Manzoni. Um dia, alguns dos nossos foram chamados sob a ordem do diretor geral do DOPS para ser inqui­ridos pelo inquisidor Lenildo. Começou a nos interrogar exclusivamente sobre  a dou­trina social da igreja, para nos mostrar que éramos contrários ao pensamento social da igreja. Sua argumentação parava no tempo, no século passado e negava todos os documento a partir de João XXIII. Fixava mais em Leão XII e Pio XII. Os frades se recusa­ram terminantemente a responder qualquer pergunta. Somente o padre Marcelo Carvalheira (hoje bispo) perdeu seu tempo argumentando com Lenildo e contrapondo com textos mais recentes do Vaticano. Isto é muito importante relatar porque mostra como a mídia na época desejava desvirtuar e nos condenar  pelo trabalho de militância que realizamos e ao mesmo tempo silenciar os dominicanos e a Igreja de São Paulo. Chegariam à CNBB e aos bispos mais progressistas. Pressionariam Roma através do Núncio Apostólico.

Nesta mesma época, quando no DOPS estávamos sendo  interrogados,  o clima de gozação à Igreja era generalizado. Nas salas dos delegados , à porta, anteposto ao nome estava a palavra FREI.  No de Tucunduva estava escrito Frei Tucunduva. Frei Maiote, etc.

  Depois de muitas pressões internacionais e internas, nacionais, e da jogada brilhante do advogado Mário Simas , pedindo ao Supremo Tribunal Federal em Brasília a nossa pri­são preventiva, já que interessava ao aparelho policial que continuássemos nos seus po­rões para as sessões de tortura e interrogatórios, eles foram obrigados a apressar todo o pro­cesso e urgentemente terminar nos seus cartórios todos os textos que teriam que ser assinados por nós e as autoridades policiais. Foi graças a isto que o ministro Buzaid, de­terminou por telefone a hora em  que deveriam terminar todo o trabalho já assinado. Conseguimos com essa pressa diminuir o que a nós estava sendo imputado, negar muita coisa que não podiam contradizer-nos,  pois estavam sob preceito urgente urgentíssimo. Assinamos aquilo que nos interessava. Esse artifício ajudou  a todos,  mas o motivo principal de nossa prisão e seu alvo maior foi inevitável: a morte de Marighella  e o final do desmantela­mento da ALN. O mal maior já tinha acontecido.