1960
João
Antônio Caldas Valença
Entrei
no Convento dos Dominicanos no ano de 1960, no dia 30 de janeiro. Vinha de uma
experiência de militância na Ação Católica na região nordeste do Brasil e
posteriormente assumi a direção nacional e latino-americana da JEC
(secundarista). Foi um período rico para a Igreja Brasileira que preparava o aggiornamento
do papa João XXIII. Uma boa parte do clero tinha feito seus estudos na Europa e
tinha chegado com idéias novas e renovadoras assumindo a direção dos seminários
menores e maiores que estavam nas mãos dos lazaristas e mesmo do clero
diocesano com mentalidade mais tradicionalista, com ranços de uma teologia do século
XIX que teimava em lutar pelos princípios do concílio de Trento e concílio do
Vaticano I. Sua formação era muito manualesca.
Esses
sacerdotes que vinham com outra cultura (ainda européia) voltaram-se
para o ensino e a assistência aos jovens camponeses, operários,
estudantes secundaristas e universitários e, com o mesmo espírito de Cardjin,
o fundador da JOC (juventude operária católica). O movimento se alastrou para
todo o Brasil em poucos anos e logo se criou toda uma estrutura que estava
centralizada no Rio de Janeiro, a nível
nacional e latino americano. Em termos regionais a presença da Ação Católica
se repetia sempre com a anuência dos bispos mais progressistas.
Pouco
a pouco a presença do leigo na Igreja ia se firmando com posições as mais
corajosas desmoronando o seu aspecto sacralizador, dúbio e hierarquizante. Os
primeiros atritos com alguns bispos de princípios conservadores já se fazia
ouvir na sociedade brasileira e eram abafados pela Conferência Nacional dos
Bispos Brasileiros, nascida na segunda metade da década de 50 e que contava com
Dom Helder Câmara na sua direção. Seus assessores eram sacerdotes
abertos a uma nova teologia e pastoral e assistentes desta juventude católica.
Aos poucos, estes padres ascendiam às sedes episcopais de várias cidades
brasileiras.
A
palavra de ordem dessa Igreja que se renovava era SERVIR. Não mais ser servida.
Desta geração de jovens, vários quiseram entrar nos seminários para estar a
serviço das comunidades nascentes. Foi um deus nos acuda nas instituições
religiosa de preparação para o sacerdócio que não estavam preparadas para
estas “vocações tardias”. Muitos viam nisso um sinal novo. Não tínhamos
passado pelas lavagens cerebrais de um seminário menor onde adolescentes se
preparavam para os estudos de filosofia e teologia. Nascia um novo desafio: Como
iriam resolver os estudos dos clássicos com o domínio prévio do latim e do
grego e do hebraico? Como adaptar
estas vocações a uma estrutura de
ensino e de vida fechados frente a uma realidade “do mundo” que estes jovens
traziam em suas bagagens de vida universitária, operária e secundarista? As
soluções foram as mais diversas, algumas coerentes, outras jocosas, outras
dignas de Stanislaw Ponte Preta que
começava a escrever o “Festival de Besteiras que Assola o País”.
Escolhi
os dominicanos porque além de bons pregadores (sua vocação primeira como
ordem), tinham uma presença alegre, jovem, culta e evangélica. Logo cheguei ao
noviciado em Belo Horizonte, onde passávamos um ano de “experiência” e
ganhei um novo nome: Maurício. Com mais 12 rapazes iniciávamos o período de
noviciado na província dominicana brasileira. Um ano mais tarde restaram seis,
depois de venturas, aventuras e desventuras, na mão de um padre mestre (guru) rígido,
centralizador, despótico e mal adaptado à Ordem. Sonhava com a experiência
como padre operário, que tinha passado no porto de Marseille (França) com o
grupo do ex-dominicano Pe. Loew.
Esse
grupo sobrevivia à custa de uma presença constante do fundador na corte romana
para desfazer equívocos da experiência frustrante para a Igreja da perda de vários
padres operários na França pós-guerra que, encontrando obstáculos por causa
de suas posições conflitantes por estarem engajados nas lutas operárias e
sindicais, terminaram tomando uma posição laicizante e muitos encontraram o
caminho marxista. O pe. Loew, critico acerbado do mundo industrializado e
consumista conseguiu, em Roma, juntamente com Pe. Voillaume e os irmãozinhos De
Foucauld, o estatuto e beneplácito para sua experiência.
A
presença deste fundador aqui no Brasil se fez dentro de muitas contradições.
Seu grupo de padres operários na cidade de Osasco teve uma participação
efetiva e presente nas lutas operárias de 64-68,
terminando com uma morte misteriosa por atropelamento de um dos seus
membros e expulsão de outro, do Brasil, pela polícia política. O pe. Loew,
anticomunista rígido e seu pupilo, nosso mestre no noviciado, sentiram
dificuldade em acompanhar a experiência dos padres operários de sua própria
fundação em Osasco.
Nesta
época de noviciado éramos todos jovens com exceção de um ex-padre secular,
que marcou sua presença entre nós com o ranço das brigas corriqueiras
com seus bispos em dioceses comandadas de modo tradicional. Encontramos um clima
favorável para uma iniciação religiosa toda centrada na tradição de 600
anos da Ordem dominicana com ritmos e ritos de estudo, trabalho e oração. Ficávamos
desligados dos contatos com nossas famílias e nossos amigos que nos viam em
raros dias, conforme prescrição
do mestre.
No
meio de catarse, descobertas místicas de iniciados e aprofundamentos da história
da Ordem e da espiritualidade tradicional da Igreja, grandes crises pessoais
brotaram e a inadaptação a esse processo, mesmo com a ajuda de psicólogos,
levou à desistência de muitos. O convento de Belo Horizonte, sede do
noviciado, tinha uma presença atuante em todos os setores da sociedade e aprendíamos
a sentir a importância da Ordem em todo um processo de mudança da sociedade
com novas fundamentações filosóficas e teológicas. A comunidade era visitada
pela elite política e pensante da
época. Não raro em nossos refeitórios tínhamos a presença de um bispo recém
eleito, de filósofos, teólogos europeus e brasileiros, de artistas plásticos,
a exemplo de Marcier, de temperamento vulcânico e que deixou inúmeros
quadros e um afresco na nossa porta de entrada.
Sentíamos
que, nessa época, a província estava saindo do jugo francês de onde tinha
nascido, no convento de Toulouse, reduto da aristocracia européia e russa nas
primeiras décadas deste século. Os
primeiros frades chegaram ao Brasil e logo se interiorizaram em Minas, Goiás e
Pará, enfrentando uma dura
realidade que fazia cair por terra os sonhos românticos dos missionários
franceses que aqui chegaram com leituras de Chateaubriand e do movimento europeu
pró-indigenista do século XIX. O lombo do burro, as trilhas, a febre amarela e
os índios, as cheias e o trabalho de desobriga fizeram nascer um novo modelo de
catequese mais brasileira. Sem estarmos vacinados para eventos inesperados como
o do frei Caron que chegando ao Brasil no início dos anos 60, para salvar os índios
do inferno, batizou toda a aldeia e recebeu um preceito de lá permanecer por
muitos anos.
Logo
após a implantação da ditadura em 1964 no Brasil, houve toda uma onda de repressão,
e a sociedade como um todo recebeu vários impactos de ordem econômica, política
e social. Foram esmagadas esperanças de muitos grupos que se organizavam na
sociedade ou como classe, através dos seus sindicatos ou grupos que tinham
afinidades religiosas, ou mesmo afinidades políticas. Esta falta de esperança
levou alguns dominicanos e outros religiosos a se organizarem extra-muros para
discutir e refletir sobre essa nova ordem implantada no Brasil, procurando saídas
para o desespero e mesmo para a atomicidade desses grupos.
O
primeiro fruto desse trabalho foi a realização do curso sobre justiça e a
doutrina social da igreja, dirigido pelo Frei Carlos Josaphat sob o beneplácito
do Cardeal Mota, naquela época dirigindo a Igreja de São Paulo. Não foi à
toa que houve uma necessidade desse beneplácito. Logo as pressões surgiram, não
só através de atos indiretos vindos da classe militar, como também daquela
burguesia que rodeava os dominicanos e os endeusava e que agora era afetada na
sua própria ideologia. Vieram também pressões da própria Ordem religiosa,
principalmente endereçadas ao convento de São Paulo.
Esses
cursos eram dados dentro da própria Igreja de São Domingos,
que pela sua arquitetura tem um grande espaço em sua única nave. Algo
maravilhoso. Ficava lotada com pessoas dos mais variados credos e das mais
variadas ideologias, para ouvir a palavra de mestre do doutor dominicano. Eu me
lembro também da oposição que alguns jornais,
principalmente “O Estado de São Paulo” , faziam a esses cursos e a
qualquer outro tipo de reunião nos salões do convento. Bem antes da quartelada
de Abril de 1964 e durante o concílio Vaticano II, era praxe desse jornal (e
temos sua coleção à disposição como testemunho) capciosamente adulterar o
conteúdo das notícias com uma chamada ou título que desviava da verdade que
era contida na matéria do artigo. Era uma maneira
de já orientar o leitor ideologicamente para a leitura do texto.
O
curso do frei Carlos sofreu várias pressões desse tipo. Mas foi
coroado de êxito com a presença de grandes nomes da vida nacional que
deram depoimentos por ocasião das aulas, não só tomando posições teológicas
mais ousadas enquanto membros do clero e da hierarquia da Igreja,
como a liderança leiga da Igreja e mesmo não religiosos que colocavam
suas posições ideológicas, de apoio à luta anti-ditadura, colocando
perspectivas históricas e fazendo análises para uma melhor compreensão do
passado recente do Brasil a partir da ditadura Vargas. O curso trouxe esperanças
para toda aquela multidão que ia ao local ouvir, sentir e procurar saídas
num lugar que se respirava um pouco de liberdade.
Lembro
também de umas palestras de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athaide,
promovidas pelos dominicanos. Ele, com sua coragem peculiar, fez todo um histórico
do pensamento brasileiro, e do cristianismo vivido no Brasil e nomeou os
elementos todos que ajudariam a todos nós na luta pela nossa liberdade. Essa
perspectiva histórica fez com que as pessoas presentes tivessem um aparato crítico
para continuar nas suas ações organizadas, revendo a formação dos grupos de
trabalho e de apoio a núcleos de oposição. Para que todos tivessem a força
para encontrar um caminho o mais rápido possível para continuar presentes na
sociedade brasileira, como frente
de reação ao statu quo vigente, com a chegada dos militares ao poder.
Houve
ainda alguns cursos com outras personalidades,
como o próprio Cardeal Mota. Aconteceram também reuniões entre as várias
Igrejas cristãs de várias denominações. Nesses encontros ecumênicos havia
momentos de oração dos vários cristãos, cada dia em uma Igreja de um grupo
religioso participante. Sobretudo as lideranças dessas Igrejas cristãs faziam
oposição ao regime. Tinham na sua pregação a perspectiva de um encontro de
todas as comunidades cristãs de várias denominações, e também de mobilização
contra a ditadura. Esses encontros ecumênicos se efetivaram durante a década
de 60.
Ressalto
agora a liderança de Aarão Sabzervian que juntamente com Brady Tyson
coordenava as reuniões. Uma figura trágica, a do pastor metodista Brady
Tyson que, marcava sua presença em
todos os grupos de esquerda da cidade de São Paulo e cidades próximas,
inclusive os marxistas. Há indícios de que trouxe a presença da CIA para o
interior desses grupos. Participava como membro atuante em alguns grupos e
oferecia mimeógrafos, telex, etc, (em alguns momentos do próprio consulado
americano em São Paulo) para ajudar as ações dos movimentos clandestinos da
época.
É
interessante fixar a figura de Brady Tyson porque ele era de inteira confiança
do movimento ecumênico e considerado confiável pelas organizações de
esquerda. No entanto, esse senhor, anos mais tarde,
apareceu na lista dos elementos que pertenciam à CIA, departamento de
informação norte-americano na América Latina. Ele tinha acesso a todas as
comunidades cristãs que trabalhavam no movimento ecumênico, e um acesso íntimo.
Falo da sua presença no Convento dos Dominicanos, onde todas as portas estavam
abertas a ele. Outras figuras também estiveram nestas comunidades religiosas e
deixaram um rastro misterioso, e até
hoje nos interrogamos se não eram da famosa comunidade de informação pelas
suas atitudes e acompanhamento de fatos bem específicos e conhecidos por poucos
ligados a luta contra a censura, ao congresso de UNE, da UEE, etc.
Estou
lembrado que um dia veio ao convento um delegado do DOPS e como pediu para
conversar com um padre e me
chamaram para ouvi-lo. Eu o levei a uma das salas que eram denominadas por nós
de parlatório. Ele estava revoltado com a atitude de um padre que tinha agido
como homem, mas que seus atos
tinham repercussão social. E que ele não admitia isso e achava que o padre era
homem como qualquer outro na sociedade brasileira. Estava ali para poder
discutir sobre a posição daquele sacerdote na sociedade, não podendo se eximir da responsabilidade de sua cidadania;
logo, dos seus atos. Gostaria de me ouvir como sacerdote. Respondi que
todos os sacerdotes, antes de tudo, são
cidadãos com todos os direitos e responsabilidades. Se o padre,
pelos seus atos tivesse de ser preso, ele teria de responder pelo que fez
diante de toda a sociedade.
Eu
achei muito estranho na época a presença desse delegado e a sua teatralidade,
embora tivesse algum problema de consciência. Mas a necessidade dele em
afirmar que qualquer sacerdote, qualquer que seja, tinha que responder pelos
seus atos, principalmente pelos seus atos políticos à sociedade brasileira,
era muito estranho. Dois anos depois encontramo-nos na sala de tortura no DOPS.
Eu
também me lembro de um ou mais casos de pessoas que profissionalmente estavam
ligados à rede de ensino secundário e que se acercavam do convento e chegavam
a me apresentar toda sua família: esposa, filhos. Levavam-me às suas casas.
Tinham uma grande necessidade de informação filosófica, ideológica e mesmo
de grupos de esquerda. Queriam que facilitássemos para eles a entrada em
grupos de trabalho ou de ação contra a ditadura. Estes casos e outros que
aconteceram com outros religiosos me levaram a um cuidado especial com a segurança
das pessoas envolvidas, o convento, os grupos.
Havia
reuniões dentro do convento das quais participavam leigos e religiosos ou
unicamente leigos. Também havia regularmente conferências, cursos cujos temas
estavam ligados a uma resistência ao regime. Os religiosos também
participavam fora do convento como convidados de vários eventos. O convento na
época teve suas portas abertas com a anuência de toda a comunidade. Não só o
de São Paulo, como todos os outros conventos da ordem dominicana no Brasil, que
pertenciam à província brasileira.
Foram
realizados neles congressos de UNE (União Nacional de Estudantes) e também da
UEE (União Estadual de Estudantes), encontros com intelectuais em geral e em
especial das universidades, dos escritores, das pessoas que trabalhavam em
comunicação, jornalismo, televisão, atores, teatrólogos, cineastas. Todos os
que lutavam também para abolir a censura no Brasil ou qualquer elemento
repressivo provocado pelo regime. Os fatos captados pela mídia da época nos
locais religiosos estão provando a veracidade
de que os dominicanos sempre estiveram abertos à oposição brasileira
durante o período ditatorial. Basta pesquisar os jornais de Minas Gerais, do
Rio de Janeiro, de São Paulo.
Havia
uma necessidade de se reunir com segurança por parte dos militantes marxistas
que pertenciam a pequenas organizações e não tinham uma infra-estrutura para
poder se reunir em qualquer lugar. Lembro-me de reuniões, inclusive com
representação latino-americana da IV Internacional dentro dos parlatórios do
convento dominicano de São Paulo, assim como houve reuniões da AP (Ação
Popular) e de outras organizações; na
época, Inclusive na Capela do
Vergueiro, com a liderança operária
para a fundação de uma CGT.
Até
1967 não havia grupos organizados de frades que pertencessem a esta ou aquela
organização. Havia frades que pertenceram a alguma antes de entrar no
convento, mas frades que continuavam a pertencer a uma destas organizações, não.
Isto é importante para determinarmos exatamente a partir de quando começou um
compromisso maior de alguns frades ou grupos de frades dentro do convento com
uma ou várias organizações de esquerda da época.
Acho
que o ano de 1967 foi o divisor de águas. 1967/1968 foram os anos em que começaram
a abertura para que os estudantes e os sacerdotes mais jovens saíssem do
convento e fossem viver em pequenas comunidades em casa e apartamentos em vários
bairros de São Paulo. Havia toda uma fundamentação inspirada na “secular
city”, na teoria da secularização (cf. Cox, Harvey: The secular city, 196?).
Enquanto
as Igrejas cristãs das diversas denominações estavam caminhando para uma
clericalização, a Igreja Católica repensava seu lugar na sociedade e
procurava desclericalizar-se. Não era uma experiência única no Brasil. Os
jesuítas já a vinham realizando há bastante tempo e o seminário de Viamão
no Rio Grande do Sul e o de Olinda já
tinham iniciado há anos a formação de grupos religiosos vivendo fora das
instituições de ensino católicas. Todas experiências bastante avançadas
para a época. Houve oposição dentro do convento a esta saída, assim como
houve oposição de vários superiores de outras ordens e bispos. O que se
interrogava era: como a Casa Geral dos Dominicanos em Roma iria responder a
esta decisão do Brasil? A oposição
que havia a esta decisão por parte de alguns frades é porque não admitiam, e
a formação dentro da tradição estava muito acirrada, a saída dos jovens
para essas novas comunidades nascentes. Alguns tinham medo de enfrentar sua
inserção mais profunda na sociedade, sua presença no mundo do trabalho, a
administração mais direta de uma casa com toda sua responsabilidade de
acompanhar até a infra-estrutura. Sem contar os desafios afetivos...
Trabalhar
dentro de um mercado que a sociedade poderia oferecer e não depender da
burguesia era algo novo na época. Alguns dos mais velhos tinham medo dos
desafios apresentados por essa mesma sociedade em suas relações complexas e
conflitantes. Lutavam para que toda uma nova geração não tomasse a decisão
do confronto. De viver novas experiências em comunidades extra muros
conventuais. Mas a força dos jovens foi mais forte e as experiências foram
acontecendo nessas várias comunidades.
A
presença dos estudantes dominicanos na Universidade de São Paulo e na
Universidade Católica (PUC) nas áreas de Filosofia, Ciências Sociais, História
fez-se notada e enriqueceu as comunidades nascentes, trazendo vários elementos
novos de vivência, inclusive com a participação dos frades estudantes no
movimento político estudantil, presença atuante em todas as passeatas de 68,
presença e representatividade no Congresso da UNE em Ibiúna com presença
na preparação do congresso, atuação constante nas assembléias do CRUSP
(Centro Residencial de estudantes da Universidade de São Paulo) onde nasciam as
diretivas para as lutas dentro e fora da Universidade. A
nova cidade universitária surgia e nela fervilhavam grupos com as mais
diferentes nuanças ideológicas. A presença religiosa neste meio era atuante
como de a qualquer estudante com participação efetiva na luta contra ditadura
que se processou nesta época. Começamos a perceber mais agudamente a repressão
que se formava fora da USP e localizada ou
estratificada no Mackenzie com um poderoso foco de direita ligada à rede de
informação dos militares. Culminou com o quebra-quebra da Faculdade Maria Antônia,
pelo pessoal do Mackenzie e grupos do Comando de Caça aos Comunistas (CCC).
Alguns
grupos universitários, para serem mais conseqüentes, saíram de uma posição
de luta interna dentro da universidade para militarem nas organizações de
esquerda que tinham uma proposta para lutar contra o regime, queda da ditadura
militar através de ações que, na
época, achávamos ser a atitude
mais correta; e tinham suas raízes na luta latino-americana, na guerrilha
comandada pelo Che Guevara e Camilo Torres e outros líderes que lutavam contra
as ditaduras latino-americanas. Em 68 estourou também para a sociedade uma crítica
que saía dos ex-militantes e dirigentes do PCB a respeito da atuação tímida
do partidão no processo de luta contra a ditadura militar. Foram esses
dissidentes que os jovens dominicanos e outros religiosos e leigos cristãos
tiveram acesso para uma convivência e crítica a respeito de cada organização
ou grupo clandestino no Brasil. A partir daqui um pequeno grupo de dominicanos
começava a participar das reuniões e receberem tarefas mais ligadas à logística.
Ora,
os frades já vinham atuando no meio universitário. E não só no meio
universitário. Na capela do Vergueiro estava aberto um espaço para a militância
operária através do MPL (Movimento Popular de Libertação). Poucos
militantes, mas que tinham uma
presença muito forte no meio dominicano. Uma das primeiras tentativas de
iniciar uma CGT no Brasil, com
presença da militância que vivia clandestina teve lugar no Vergueiro. As
lideranças sindicais “oficiais” também compareciam. O MPL também tinha
mais acesso à militância cristã, principalmente
a que atuava na Ação Católica, e
especialmente os profissionais liberais: engenheiros, advogados, médicos,
professores. Chegaram a formar um Consórcio de carros para ajudar os
dominicanos, chamado “Aprovei”.
Eventualmente
também ajudavam as organizações. Eu me lembro que alguns frades ajudaram na
logística do PC do B e da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Os primeiros a
entrarem na ALN foram o frei Osvaldo e frei Betto, logo outros foram aderindo a
esse projeto de luta contra a ditadura militar. Dado o conhecimento que tinham
de pessoas em todas as camadas sociais, a coordenação logística ficou com os
frades. A rede de conventos era importante para o projeto e era a base de uma
infra-estrutura nascente, de comunicação. A quantidade e qualidade de pessoas
formadas pelos religiosos pelo Brasil facilitavam o processo de arregimentação,
principalmente porque todas essas pessoas já tinham uma prática de militância.
O
convento de São Paulo foi a base para uma extensão maior da presença
militante na capital. Pensava-se para um futuro próximo uma atuação maior do convento de Conceição do Araguaia,
como início da logística para formação dos grupos de guerrilha da
ALN. Nessa região, os dominicanos atuavam desde o começo do século junto aos
índios e caboclos e conheciam as matas como ninguém. O
local era bom para o projeto de Guerrilha que Marighella tinha idealizado
estendendo-se a algumas trilhas nos estados vizinhos,
região que o Lampião tinha percorrido.
Essa
adesão por parte desse grupo de frades dominicanos não foi da noite para o
dia, demorou alguns meses para que
um ou outro aderissem ao grupo inicial. Também não foi fácil escolher uma
liderança. Primeiramente havia uma bipolaridade na liderança entre as figuras
de frei Betto e de frei Osvaldo. Esta tensão continuou durante toda a existência
do grupo até a prisão. Lutava-se para que a liderança do frei Betto não se
tornasse a única e exclusivamente especificada dentro do grupo dos dominicanos.
Ela também se derramava fora dos grupos religiosos.
Pouco
a pouco, e por causa da nossa influência e presença no meio social paulistano,
conseguimos aglutinar em torno de nós nomes que já tinham tido uma militância
universitária, e tinham passado por algumas organizações, marxistas ou não
marxistas, para seu engajamento na ALN. As abordagens eram feitas com cuidado,
paulatinamente, com leituras e críticas aos textos da ALN e com discussões
sobre outros textos marxistas, mesmo de outras dissidências, e até textos mais
acadêmicos como o de Althusser, de Camilo Torres, de Guevara e alguns textos de
Marx.
A
figura do frei Osvaldo foi mais forte em alguns momentos e foi quem determinou
mais agudamente o projeto e planejamento do trabalho desse grupo de frades e
de militantes que extrapolava o estado de São Paulo, atingindo até contatos no
Nordeste e em Goiás. Todos os novos militantes ou áreas próximas
tinham muito claro todo o planejamento do que queríamos, no que diz respeito ao
projeto de luta anti-regime. Tudo era muito bem acolhido e as ações logísticas
cresciam sob a orientação da coordenação estadual ou nacional da ALN. Tínhamos
a disposição carros, casas, salas de conventos, equipamentos gráficos, etc.
Tudo nos ajudava para que recebêssemos os militantes que vinham de vários
estados do país e que se dirigiam às fronteiras
para fugir da perseguição da polícia política ou para se dirigir para
os cursos dados em Cuba ou Argélia.
Alguns
conventos de religiosas tinham colocado em disponibilidade infra-estrutura para
criarmos um mini-ambulatório para operações de urgências com um pequeno
banco de sangue. Uma pequena rede de médicos com várias especialidades que já
estavam avisados para qualquer necessidade de urgência. Outras pessoas criavam
redes de captação de trabalho para militantes que viviam em
semi-clandestinidade, outros trabalhavam para a alimentação e pousada dos que
passavam a caminho do Uruguai,
Argentina ou Paraguai.
Essa
acolhida os preparavam psicologicamente para uma nova etapa que iriam enfrentar
fora do nosso país. Tivemos uma prática de meses ou no máximo ano e meio. Não
demorou anos. Foi um período de muita tensão, em plena vigência do AI-5 (Ato
Institucional no 5 imposto pela ditadura militar). Não tínhamos
claro todos os limites da segurança
imprescindível para este tipo de trabalho. Um dos princípios primeiros de
segurança da ALN era de que no máximo poderíamos conhecer de quatro a cinco
pessoas do grupo e com nome frio. Entretanto,
vivíamos abertos para dezenas e dezenas de pessoas, usando os nossos
nomes religiosos.
Outro
ponto vulnerável era quantitativamente a pouca militância na ALN para a
quantidade de tarefas, tanto na área
logística como na área de apoio ao grupo armado. Começaram a nos pedir para que fizéssemos ações secundárias
como a guarda de pessoas, acompanhamento de pessoas feridas durante todo o seu
processo de recuperação, etc. Não tinha sido para essa finalidade que os
dominicanos haviam entrado nesse trabalho.
Ora,
com a tensão externa nos momentos
mais cruciais da repressão militar aos grupos organizados, e a prisão de vários
militantes das diversas organizações clandestinas; e com a tensão gerada
dentro do convento por ordens advindas de Roma e da hierarquia católica
brasileira, os frades que tinham se engajado na luta política foram, pouco a pouco, sendo
cerceados para que não houvesse um desvio grande da sua missão ou função
dentro da comunidade conventual. Alguns nomes de religiosos foram logo queimados
na província brasileira e na vice-província italiana, principalmente
pelos frades mais tradicionais.
Articularam-se
os da ALN para uma saída tática e estratégica de frei Betto para o Rio Grande
do Sul, onde estudaria teologia na faculdade dos jesuítas em São Leopoldo.
Também uma saída de frei Osvaldo para a Europa, com a finalidade de um
aprofundamento e um estudo do marxismo num instituto dominicano na Suíça. O
frei Betto no Rio Grande do Sul daria uma ajuda ao grupo que ficou em São Paulo
para levar os militantes da ALN ou de outras organizações para Argentina ou
Uruguai. Osvaldo, na Europa teria uma função de ser porta-voz junto aos meios
de comunicações internacionais das ações da ALN e de ajudar junto à mídia
a aceitação da guerra de guerrilha que estava planejada para a região do
Araguaia. Eventualmente também
captaria dinheiro para ajudar em todo este projeto.
Com
a saída dessas duas lideranças, gerou-se
uma tensão no grupo para a escolha de um substituto para dirigir o núcleo do
convento de São Paulo. A responsabilidade caiu na pessoa de Frei Fernando,
que aceitou com dificuldade porque não se sentia apto para assumir
esta coordenação. Mas seu nome foi referendado por todos. Apesar que na época
sofria restrições, da parte de Frei Betto, para assumir a nova liderança.
Faziam
parte da ALN no Convento de São Paulo: frei Osvaldo, frei Betto, frei Maurício
(João Valença), frei Fernando, frei Ivo Lesbaupin, frei Magno Vilela, frei Luis Felipe Ratton Mascarenhas,
frei Giorgio Callegari, frei
Tito de Alencar. Esses é que tinham se decidido por uma participação efetiva
na ALN dentro do Convento dos dominicanos. Nós estávamos tentando conversar
com outros frades de outros conventos para tentar formar núcleos em outras
cidades em que os dominicanos atuavam e até já tínhamos contatado outros
religiosos de outras ordens como os franciscanos de Petrópolis.
Entre
os participantes estava o frei Tito que teve, como eu, uma militância no meio
secundarista no Nordeste e participou da equipe nacional de Ação Católica e
pertenceu a outra geração, posterior à minha em poucos anos. Participou
efetivamente em todos os movimentos do nordeste pró-reformas de base no Brasil
no período pré-golpe militar e pós-golpe militar antes de entrar para o
convento dominicano, tendo uma amizade com vários militantes marxista
nordestinos, e por estar próximo
participou de várias tarefas na luta contra a ditadura. A sua presença no
grupo da ALN nunca foi bem definida por ele próprio e eu diria mesmo bastante
conflitante. Achava que a inserção nesse grupo ia contra alguns valores
pessoais e de princípios filosóficos e mesmo ideológicos. Não admitia também,
na primeira fase do grupo, nem
a liderança do frei Betto, nem a liderança do frei Osvaldo. Na segunda fase,
com a coordenação de frei Fernando, ele colocava claramente para o grupo o
conflito pessoal existente agudamente entre a teoria marxista do materialismo
dialético e a sua fé, a sua credibilidade no mundo religioso. Na sua vocação,
ele compreendia que num determinado período ou fase histórica da luta aqui no
Brasil poderia existir um trabalho comum de cristãos e marxistas mas ele não
via bem como seria sua participação e dos frades como grupo religioso
pertencendo a uma organização marxista declarada.
O
que aconteceria durante todo o
processo de luta em suas novas fases? Como enquadraria
tudo isso aos valores cristãos que conflitavam com a praxis que
presenciara no período de militância no Nordeste? Junte-se a este dilema
um outro, comum a outros religiosos neste período,
que passavam por um tratamento analítico severo. O próprio frei Tito
estava fazendo uma narco-análise que abriu o seu lado consciente/inconsciente
de modo muito mais agudo, o que provocava uma postura pessoal muito crítica,
questionando tudo o que ele fazia e pensava como valores. Junte-se ao que ele
passou na prisão e teremos um quadro que explica o seu ato extremo na França
em 1974, suicidando-se.
Voltando
ao grupo da ALN, de religiosos
e leigos, os acontecimentos foram atropelando-se, havia uma necessidade
de que a militância perigosamente fosse acumulando tarefas. Começamos a
ampliar mais ainda os quadros externos ao convento, conversando com as pessoas
que, para nós, eram melhor preparadas e mais confiáveis e que estavam
esperando um chamado para integrar o grupo. Isto não era realizado de maneira
gratuita e apressada ou mesmo enganosa; cada nome foi discutido e trabalhado com
acompanhamento por parte de todos em cada reunião. Nós apresentávamos os
textos para as discussões e gradativamente, uma linha de ação era dada a cada
um, para que houvesse, através da prática, um avanço pessoal de cada
militante no campo político.
A
presença dos antigos militantes dissidentes do PCB foi se tornando maior nas
nossas vidas, através de uma relação mais forte, gerando confidências sobre o que se passou e passava no PCB
e nas organizações, discussões sobre um ou outro ponto teórico e sobre a
bibliografia clássica da época. Lembro-me particularmente do Dr. Samuel
Pessoa, um dos maiores sanitaristas que o Brasil já teve, convidado pela ONU
para provar a guerra bacteriológica feita pelos americanos na Coréia (paralelo
38) na década de 40. De sua esposa Dona Jorgina,
de Câmera Ferreira e de
Carlos Marighella, entre vários outros.
Carlos
Marighella fazia reunião conosco em locais previamente preparados pelos frades,
inclusive em alguns colégios de religiosas e outros pontos escolhidos por ele
(Alameda Casa Branca, uma rua atrás do cemitério da Consolação, atrás do
cemitério do Araçá, algumas ruas do Jardim Europa, etc). Ele chegou a ter
conversas e reuniões com nossos superiores, tanto o provincial como priores da
província brasileira no convento de São Paulo. Essa era uma tática que o
grupo dos dominicanos planejou exaustivamente e a cumpriu como meta importante.
Que os superiores estivessem sabendo de nossas ações, para que melhor fosse
facilitado o nosso trabalho em suas diversa dimensões e nos diversos estados
brasileiros. Particularmente a região de Goiás e especialmente Conceição do
Araguaia. Respeitariam as nossas saídas e as nossas viagens.
Pouco
a pouco, essa presença de Marighella do nosso grupo foi se estendendo e se
efetivando em outros grupos de militância,
na sua maioria de leigos. Não mais se reunindo dentro do espaço
religioso, mas nas casas dos novos militantes que estavam abertas para receber
algumas tarefas logística da ALN. Os encontros com o Baiano continuavam nos vários
bairros da cidade de São Paulo para receber e dar os resultados das tarefas
pedidas. Com o recrudescimento da repressão nesta época fomos, como grupo da
ALN, definindo-nos para um trabalho mais específico e deixando de lado as
tarefas e responsabilidades que tínhamos com outros grupos de esquerda.
Deixando que os religiosos que não pertenciam ao nosso grupo continuassem com
os contatos. Para nós já bastava o que nos era pedido pela ALN. Os outros
ficariam com AP (Ação Popular), PC do B,
MPL, os socialistas, etc.
Começamos
a abrigar na Capela do Vergueiro, onde eu morava com frei João Batista, algumas
pessoas que estavam de passagem pelo estado,
a caminho do Rio Grande do Sul e do Uruguai. No caso de nossos
companheiros militantes outras tarefas eram dadas, não só a de hospedagem
de alguns militantes procurados pela repressão como a de confeccionar
documentos civis para poderem sair do país, fotografias para esses documentos,
pequenas gráficas improvisadas, estoque de documentos da ALN, etc. Estávamos
em pleno ano de 1969. À medida que os meses
iam passando, acontecimentos importantes para nós iam nos envolvendo
mais, atravessávamos perigos bem maiores, havia prisões de companheiros,
aberturas de nomes na tortura, avanços nas informações a respeito de cada
grupo de esquerda por parte dos vários sistemas de informações da ditadura:
DOPS, OBAN, CENIMAR, etc.
Antes
da nossa prisão, eu e frei Fernando trabalhávamos na Editora Duas Cidades sob
o comando do frei Benevenuto Santa Cruz. Havia um ponto de táxi em frente
a essa empresa que recusava qualquer tipo de cliente,
com exceção daqueles que saiam da livraria. Principalmente se fosse um
de nós. Os taxistas não aceitavam corrida de terceiros. Lembro-me também que
estava estudando, nesta época, em uma faculdade perto da cidade de São Paulo e
várias vezes tinha a impressão de estar sendo seguido dentro do trem no qual
eu fazia o percurso diário.
Outros
fatos foram se somando, criando um clima geral de desconfiança,
culminando com um convite aos padres dominicanos para que fossem, um
deles ou vários, ao hospital onde estava acamado o pai de um dos nossos
militantes presos: o Dr Madeira. O padre escolhido foi o Frei Guilherme que não
tinha envolvimento com qualquer grupo e era um dos mais velhos da casa. Durante
a visita feita pelo Dr. Madeira ao seu pai, este transmitiu ao Frei Guilherme
que o frei Fernando e o Frei Ivo já tinham sido abertos à repressão através
da caderneta de endereços do Paulo de Tarso Venceslau, por ocasião da sua prisão
em São Sebastião, uma das praias
do litoral de São Paul, logo após
o seqüestro do embaixador Elbrich.
Paulo
de Tarso era do grupo tático armado (GTA) da ALN, tinha sido universitário
na Maria Antônia e participou ativamente do seqüestro. Quando os militares
entraram no local onde estava o
embaixador, no bairro do Rio
Comprido (RJ) encontraram um paletó, e
através da etiqueta do alfaiate da cidade de Taubaté chegaram à pessoa de
Paulo. Na caderneta estava o nome dos dois dominicanos e o telefone do Convento
das Perdizes em São Paulo.
Frei
Guilherme, após ouvir o relato,
transmitiu-o aos seus superiores e ao grupo do convento que trabalhava na ALN.
Aos freis Fernando e Ivo, especialmente.
Imediatamente pedimos uma reunião com Carlos Marighella em meu apartamento,
pois fazia dois meses que eu tinha pedido para sair da instituição dominicana
e morava na Rua Rocha, perto da praça 14 Bis, na Avenida Nove de Julho.
Gostaria
de refletir um pouco sobre a qualidade do posicionamento, da postura, do
trabalho das pessoas que nos ajudavam nesse trabalho político. Na sua maioria,
tinham profundas raízes cristãs, não eram marxistas. Acreditavam na luta
contra o regime ditatorial aqui no Brasil. Eram pessoas que cresceram
religiosamente conosco, acreditando
sempre na postura dos dominicanos e cresceram politicamente, com consciência e
muita lucidez. Digo consciência e lucidez porque nada foi escondido a todos que
trabalhavam conosco, os perigos e qual o fim a que desejávamos chegar. Todos os
atos eram refletidos, discutidos, comentados, criticados para se ter uma decisão
mais profunda.
No
momento em que as casas dos nossos amigos foram abertas para receber militantes
de várias organizações de passagem pelo estado de São Paulo é que
percebemos, através de conflitos e sintomas,
que o andamento e vida das organizações, e em especial da ALN, não ia
bem. Primeiro: havia poucos militantes e não havia crescimento dos quadros.
Segundo: havia fechamento e encastelamento de grupos dentro da própria ALN,
não por motivos de segurança, que seria justo e louvável, mas por um
conflito entre grupos da própria organização envolvendo militantes de vários
estados brasileiros. O estado de São Paulo tinha uma postura de afastamento dos
militantes do Rio de Janeiro e ambos em relação ao Nordeste brasileiro.
No
que concerne aos dominicanos, tinha um profundo respeito, sabia exatamente qual
o papel do grupo de religiosos no processo de luta no Brasil, por isso
respeitava sua religiosidade exposta, vivenciada várias vezes pelos frades.
Chegou a estar presente em alguns atos litúrgicos, como a eucaristia, e notei
nele um profundo respeito pelo que estava sendo vivenciado por parte da
comunidade (num colégio de freiras) em relação ao ato cristão.
Já se teceu sobre ele, sua personalidade, páginas que já estão na
história do Brasil e gostaria que a elas fossem acrescentadas o meu testemunho.
-“Sei
que você não acredita em mim diante das acusações em jornais sobre minha
pessoa”- falou Bradie depois de dar explicações da sua vinda ao Brasil .
-“Onde
tem fumaça, tem fogo- respondi friamente- até prova ao contrário eu acredito
nos meus companheiros do Jornal”. Foi
uma visita curta e grossa.
Após
o passeio no litoral com o Rafael Cantoni chegamos à São Paulo no dia 02 de
novembro a noite. Na manhã de segunda feira fiquei me preparando para assumir o
novo trabalho na Editora Abril na
terça feira. Olhei meu apartamento e nele enxerguei objetos bem pessoais e
fotografias que indicavam eu ter tomado posse do espaço e já sentia minha
presença . Minha primeira casa, depois
de 10 anos. À tarde fui assistir o Teorema de Pasolini e me apaixonei tanto
pelo filme que assisti mais duas sessões. Ao chegar às 22 horas recebi o
telefonema dos manos Ribeiro Pena (Antônio e Auxiliadora) : -“João, venha o
mais rápido possível porque seus irmãos Fernando e Ivo ainda não chegaram. O
Edson (prior do Convento) está conosco. Ratton também”.
-“Como
é seu nome ? “. -“João Antônio”. -“Mostre-me seus documentos”. Com
cuidado tirei minha carteira com meu nome civil e empurrei a outra , com o nome
religioso para dentro do bolso. Enquanto abria a porta e começava a entrar ouvi
o esperado: -“O sobrenome é o mesmo. Esteja preso! “.
Imediatamente
me levaram para uma perua Chevrolet juntamente com Edson e Antônio depois de
fazê-los parar o Wolks que dirigiam ao passar de volta pela entrada do prédio.
Mais carros, em questão de segundos, se juntaram a comitiva, todos armados de
metralhadoras e fuzis. Antes da minha chegada, um grupo procurou uma escada na
vizinhança para galgar, por traz do edifício, até o primeiro andar onde
estava situado um janelão que dava para minha sala. O delegado que me prendeu,
depois de pedir a chave e enviar dois auxiliares para vasculhar minha
casa perguntou: -“Sabe por que está sendo preso?” Depois de responder um não
e receber uma tapa na cara, retrucou: - “Vais saber daqui a pouco”.
O
trajeto ate o DOPS, prédio soturno, parecendo
antiga fábrica, situado entre a
antiga rodoviária e a estação ferroviária, foi rápido o suficiente para nos
entreolharmos poucas vezes. Entramos pelo lado esquerdo do prédio onde havia um
grande portão de ferro e fomos direto para o 3o andar para uma sala
que saberíamos depois ser do delegado Cintra Bueno. Seu superior tomava o seu
lugar atrás de uma escrivaninha antiga e pesada e à sua frente, irreconhecíveis
como resultado de sessões de tortura, estavam Frei Fernando e Frei Ivo
Lesbaupin. Depois dos policiais falarem que eu era “quente” e que até
aquela hora não sabiam, os dois frades me pediram cigarros e ao oferecê-los
percebi que tinham pouquíssima capacidade motora. Suas roupas manchadas de
sangue coalhado compunham um quadro aterrador, para mim, olhando várias
partes de seus corpos inchados e macerados.
A
minha recusa e a afirmativa de que
não sabia do que estava acontecendo gerou uma animalidade da parte dos que me
prenderam e me arrastaram pelos cabelos pelo longo corredor daquele andar
e por uma escada tivemos acesso a um pavimento intermediário e meio
escondido onde estava situada a câmara de tortura. Uma sala de quatro metros
por dois. À vista tinha uma “cadeira de dragão”, que era uma cadeira de
braços com espaldar alto, toda revestida de metal, talvez alumínio, que
transmitia com mais facilidade a eletricidade que era enviada à cadeira quando
se acionava uma chave que ficava em cima de uma das mesas da sala,
para que fosse acionada por um dos torturadores. Nos seus braços e
pernas tinha arreatas de couro para
segurar a pessoa, para que esta não
fosse projetada, nos períodos de interrogatórios ou sessões, com a
intensidade do choque, à parede
ou ao chão da sala
As
perguntas se fizeram mais contundentes e eu procurava manter um equilíbrio
emocional para avaliar o que já tinha sido “aberto” pelos meus dois
companheiros frades. Guardaram as 48 horas de silêncio exigidas pelo código
da organização ALN, mas abriram
nomes e ações que levaram a um fio de meada de que eu não sabia das conseqüências.
Depois de meia hora de seção de pau-de-arara recebendo choques no ânus, na
boca , nos ouvidos, nos pés e em todas as partes do corpo, foram me colocar na
cadeira elétrica. Quando estavam atando as arreatas nos meus braços e pernas,
entra Frei Tito com o Sérgio Paranhos Fleury, o delegado. E nós dois passamos
a ser torturados juntos. Queriam porque queriam que nós confessássemos todo o
projeto em andamento da ALN e a participação nossa na organização. Eles já
estavam sabendo de muitos detalhes e tinham uma espécie de roteiro quando nos
interrogavam. Perguntavam por nomes, o engenheiro Roberto, o engenheiro Mané,
e muitas outras pessoas que faziam parte do nosso grupo de apoio, dando a
entender que alguns nomes e alguns
trabalhos foram abertos pelo Ivo e Fernando.
Pouco
a pouco foram se juntando a nós todas as pessoas que tinham sido presas naquela
madrugada. Todos os frades que pertenciam ou não ao grupo menos Ratton e Magno
que depois conseguiriam fugir do país. Foram presas boa parte das pessoas que
trabalhava conosco no apoio logístico. Entre eles Rabote, amigo de Tito que o
consolava mostrando que já tinha tido experiência de prisão no período de
ditadura de Vargas. O importante era voltar a ter força para não abrir
mais do que foi aberto. Os militantes mais velhos nos aconselhava a juntar os
cacarecos do que foi aberto e construir uma história para dela não sair .
Mesmo sendo torturado. Quando mais abríssemos seria pior.
Com
o correr dos dias, aprendemos todas as maneiras de entrar em comunicação com
os parentes através do suborno dos chefes de carceragem e dos investigadores
que nos traziam cigarros, comida, roupas e material de higiene. Nada que
provocasse perigo em termos de integridade física contra nós mesmos. Os mais
velhos sempre nos ajudaram a nos
mantermos calmos, em reflexão
constante para que não tirassem de nós informações preciosas. Foi checado
tudo que tinha sido aberto. Bilhetes iam e vinham entre as celas. Frei Fernando
e frei Ivo historiavam tudo o que tinha sido falado durante os dois dias de
tortura: nomes, locais, o que fizeram, o que as pessoas que estavam ali presas
fizeram. Um novo núcleo narrativo se enroscava no que tinha sido
aberto até aquele momento.
Realmente,
os dois frades saíram no começo da noite e só chegaram de manhã cedo
para entrar nas suas celas. As reações dos companheiros presos foram as mais diversas.
Alguns pensavam que tudo aquilo era uma farsa e uma grande mentira.
Outros ficaram arrasados porque acreditavam que aquilo que estavam
ouvindo tinha acontecido. Fernando ficou na cela com Padre Augusti e passou vários
dias num puro silêncio. Ivo acompanhava-o. De manhã cedo nos tiraram da
carceragem um por um para passarmos pela seção de datiloscopia,
na qual nossos dedos sujos de tinta imprimiam suas marcas nas fichas.
Retratos foram tirados de cada um de nós enquanto os investigadores se
divertiam falando que estávamos tocando piano.
Quando
voltávamos da tortura os companheiros já estavam esperando com palavras de
alento, de carinho, de cuidado com nosso estado biológico, físico,
emocional. Novas reuniões eram feitas, os padres celebravam a eucaristia,
inclusive com a presença das companheiras que vinham à nossa cela. Nessa hora,
a porta aberta pelo carcereiro, aproveitávamos para checar as histórias
abertas.
Um
fato importante que me marcou muito foi quando nos avisaram (aos frades) que tínhamos
que nos barbear porque vinha nos
visitar o cardeal de São Paulo. E os frades, um a um , fizeram a barba na
frente de um policial para que não usássemos a lâmina da gilete
impropriamente cortando os pulsos ou a carótida. Depois deram-nos cordões
simples
de algodão para que servissem de cinturão e nossas calças se segurassem
apropriadamente. Estávamos alegres. Pela primeira vez iríamos conversar com
uma pessoa importante quebrando nossos únicos contatos
que eram pessoas daquela ordem policial vigente no DOPS.
As
primeiras pessoas que subiram fomos eu e o Giorgio Callegari e descobrimos que
tinham preparado uma farsa para nós. Nos levaram para o último andar do prédio,
onde em cada sala líamos, ao
passarmos pelo corredor, em cada porta fechada, a especialidade em que os
burocratas se ocupavam: setor
universitário, setor operário, setor camponês. Ali se acumulavam
especializadamente as informações de setores da nossa sociedade. Colocaram-me
na sala do setor universitário, enquanto
o Giorgio Callegari ia para uma outra sala,
e eu ouvi quando ele se esperneou não querendo responder um interrogatório
que estava dirigido à pessoa dele.
Um
medo imediatamente se apoderou de mim, como em todas as sessões de tortura o
medo se apodera das pessoas. Quando o Giorgio saiu não me deixaram falar com
ele; eu entrei naquela sala, era um cubículo com um bureau na minha frente.
Colocaram-me sentado numa poltrona com um delegado ao meu lado e, no meio de
refletores eu enxerguei em cima da mesa um equipamento sofisticadíssimo e
pequeno
de gravação em vídeo. Não eram os trambolhos que usavam para fazer “vídeo
tape” nas televisões da época.
-“Não
estão notando que ele está querendo boicotar toda a gravação! Que mandassem
eu falar alto e em bom tom respondendo a todas as perguntas. Não repetiram as
perguntas anteriores e eu logo cheguei ao fim daquele interrogatório gravado.
Descemos bufando eu e o Giorgio Callegari
para a carceragem, dando
tempo para avisar aos outros o que estava sendo preparado para eles naquele último
andar do DOPS. Assim subiram os frades, em dupla para serem filmados. Soubemos
depois que esse programa saiu uma vez nas televisões brasileiras
querendo mostrar a que ponto
os dominicanos tinham implicações na sua luta contra o regime, servindo de
contrapropaganda.
Na
década de 70 encontrei amigos do meu pai, empresários de ônibus, e que
faziam parte da comunidade de informação, que tinham cópia desse programa.
Eu
e Tito, silenciosos,
olhávamos espantados para aquela situação cômico trágica que pesava
no ambiente. Depois que os delegados, cinicamente, afirmaram sua fé e confirmaram
seus estudos em colégios católicos (beneditinos e maristas) e se disseram bons
cristãos, pediram que nós conversássemos
na frente deles com o senhor cardeal. O frei Tito dirigiu-se a D. Agnello
Rossi perguntando como tinha sido o sínodo dos bispos no Vaticano recentemente
realizado. Este respondeu friamente e logo virou-se para os delegados como que
continuando uma conversa interrompida com nossa entrada na sala:
Respondi:
-“Enquanto fui sacerdote de vossa arquidiocese, eu nunca fui visitado por
vossa senhoria para poder ser interrogado sobre a minha vida e agora que já
pedi licença par sair da minha comunidade, eu não tenho responsabilidade de
dar contas da minha vida a chefe nenhum da Igreja Católica. “ O ambiente
ficou sufocante e os delegados pegaram nos nossos braços indicando que aquela
visita tinha terminado. Perguntaram antes se nós não íamos agradecer a visita
do cardeal. Respondi: -“... Bem aventurados aqueles que visitam os presos,
principalmente os presos que têm sede de justiça. Ganharão um pedaço do céu...”
Cintra
Bueno, cinicamente, só fazia olhar e ouvir. Denunciamos tudo o que tinha se
passado conosco, eu e o Tito, e também o que estava acontecendo na carceragem.
Frei Couesnongle nos pediu que tivéssemos força, coragem, pediu a verdade,
pediu que contássemos toda a verdade, o que realmente estava acontecendo.
Os que nos antecederam também tiveram coragem.
Cintra
Bueno precisa ter sua memória resgatada como um dos fenômenos aberrantes da
ditadura. Sua sala era o epicentro da comunidade de informação ligada a igreja
e vimos vários religiosos e religiosas adentrarem no seu recinto para levar
informações. Inclusive chegavam às suas mãos gravações de todas as discussões
nas reuniões e assembléias da CNBB em Itaicí, no interior de São Paulo .
Sempre estava rodeado de militantes da TFP (Tradição Família e Propriedade),
entidade ligada a Plínio Correia de Oliveira e ao bispo de Campos (hoje já
falecidos). Chegavam com rascunho e rabiscos de pregações dos padres das
igrejas de São Paulo. Era o Cintra Bueno que nomeava os padres que seriam capelães
militares. Todos com forte ideologia de direita e que andavam pelos cárceres,
alheios às torturas e misérias e injustiças; procurando desajudar as pessoas
presas e torturadas. Lembro que
foi designado para nós, por ele, um capelão da cidade de Santos e que nos dava
nojo com a sua conversa, sua raposice, sua maleabilidade a se adaptar a qualquer
situação. Tínhamos certeza que não era humano. No mínimo faltava a coragem
para denunciar tudo aquilo que quotidianamente via naquele espaço.
Nesta
mesma época, quando no DOPS estávamos sendo
interrogados, o clima de
gozação
à Igreja era generalizado. Nas salas dos delegados , à porta, anteposto ao
nome estava a palavra FREI. No de
Tucunduva estava escrito Frei Tucunduva. Frei Maiote, etc.