Marighella: vida e ação criadoras
Joaquim Câmara Ferreira
A publicação de alguns trabalhos de Carlos Marighella constitui, a nosso ver,
não só uma homenagem ao homem que mais contribuiu a dar um novo rumo ao
movimento revolucionário brasileiro, como também uma contribuição ao esforço
de quantos se empenham, particularmente na América Latina, em seguir os
exemplos dos povos cubano e vietnamita empunhando as armas que a reação
conseguiu arrebatar das mãos do Che Guevara e agora, do próprio Marighella.
Nos livros, folhetos e documentos que escreveu desde 1964, nem tudo é original.
Neles encontramos muito do que já foi dito por Lênin, Mão Tse Tung, Ho Chi
Min, Fidel Castro, Che Guevara e tantos outros. Mas, tampouco se trata de copia.
Marighella procura aplicar à realidade brasileira as verdades universais
expressadas nas idéias dos grandes líderes das lutas emancipadoras de todos os
tempos. E deduz, da analise das condições físicas, econômicas e sociais do
Brasil, novos e originais elementos. "A ortodoxia é coisa de religião e
da velha religião", acostumava dizer.
A preocupação permanente em fazer a Revolução é o que levou o homem que
dedicou toda sua vida à causa do socialismo a elaborar uma nova estratégia
global para a luta de libertação dos brasileiros. Para ele, a expressão
"o dever de todo revolucionário é fazer a revolução" ao contrário
de constituir uma tautologia tinha um sentido muito profundo. Todos os sacrifícios
que fez, década após década, fé-los pela revolução. Porém, quando sentiu
que os homens da organização a que pertencia se obstinavam na aplicação de fórmulas
gastas, insistiam em manter a luta em estreitos limites táticos "até que
sejam criadas as condições objetivas e subjetivas para a revolução",
compreendeu que tinha chegado o momento para uma mudança radical.
Para ele, as condições objetivas para a Revolução estão criadas há muito
tempo, resultado da própria ação do imperialismo e do sistema de propriedade
da terra. O golpe de 64 colocou em evidência essa realidade ao criar uma situação
na qual se fecharam as válvulas de escape da democracia burguesa. A Revolução
estava, portanto, na ordem do dia. Era preciso elaborar uma estratégia
global a partir da premissa da necessidade da luta armada; traçar o caminho da
guerrilha rural e urbana; atacar os centros nervosos da ditadura; atacar onde
quer que se encontrem aos norte-americanos e aos gorilas. Essa seria a tarefa
dos revolucionários que, com seu exemplo, mobilizariam e arrastariam à luta,
contingentes crescentes de operários, estudantes, camponeses e gente do povo em
geral.
Essa sua visão e também a justa compreensão de que a luta de libertação dos
povos da América Latina é uma só, e de que na batalha pela emancipação
nacional e a construção do socialismo os latino-americanos terão que unificar
seus esforços - tal como no século passado na luta pela independência política
- foi o que o levou a participar da conferência da Organização
Latino-americana de Solidariedade - Olas.
Seus pronunciamentos de então, através da Rádio Havana-Cuba e da imprensa
cubana, repercutiram profundamente no Brasil. Ele se dirigiu diretamente aos
revolucionários e ao povo. Limitar a luta ao âmbito partidário seria
condena-la à esterilidade das discussões intermináveis dos documentos
fastidiosos e, finalmente, ao fenecimento da esperança. Além disso, a esquerda
brasileira está atomizada. São vinte ou trinta organizações, todas elas
pretendendo ser "o partido" ou a "vanguarda".
A criação burocrática de mais uma organização a nada conduziria. Era necessário
inverter os termos do problema. Um programa geral, estratégico e tático, já
havia sido apresentado nos documentos aprovados pela conferência da Olas, que
sintetizavam as melhores experiências da luta libertadora dos povos da América
Latina; suas conclusões coincidiam com o pensamento que amadureceu nos
companheiros que tinham se rebelado dentro do PCB e em numerosos revolucionários
de outras origens.
O essencial era a ação. "A ação faz a vanguarda", proclama então
Marighella. E a direção? A direção é a guerrilha, é o comando
guerrilheiro. O comando operativo se confundirá com o comando político
militar. Concentra-se então no estudo da realidade física do Brasil e
das experiências das lutas guerrilheiras do passado.
País de proporções continentais, não existem no Brasil montanhas muito altas
nem florestas muito densas nas zonas relativamente habitadas. Existem, porém
grandes rios e grandes extensões que proporcionam condições para rápidos
deslocamentos. O importante seria fugir ao cerco estratégico das forças
armadas concentradas na área do litoral e conhecer profundamente toda a
configuração - estradas, caminhos, acidentes geográficos, etc. -, das zonas
onde os grupos guerrilheiros terão de atuar. Do triângulo de sustentação -
Guanabara, São Paulo, Belo Horizonte - partem os "eixos
guerrilheiros", apontando ao "coração" do Brasil.
Porém nem a guerrilha estará limitada ao "coração do Brasil", nem
o triângulo de sustentação terá que se preocupar somente em fornecer-lhe
armas, dinheiro, técnicos, medicina, etc.. A guerrilha terá que se espraiar
por todo o Brasil e o poder da ditadura terá que ser desafiado também nos
centros vitais do país.
A guerrilha urbana e rural, a sabotagem nas cidades e no campo, a ação dos
pequenos grupos e a ação das massas. Esta é a estratégia global da qual
Marighella não faz segredo e expõem, até detalhadamente, a todos os
revolucionários com quem entra em contato. E isso, não para fazer
proselitismo, para coloca-los sob seu comando, mas sim para estimula-los à ação.
Os grupos revolucionários podem unir-se ou atuar separadamente, manter ou não
vínculos entre si. O essencial é a ação. Essa é a que despertará a energia
revolucionária de nosso povo, a que determinará a formação de um caudal de
lutas que nada poderá deter.
Isso é o que unirá realmente a todos os revolucionários, isso é o que fará
surgir os comandantes. A vanguarda será a guerrilha, porém os comandantes serão
pessoas de carne e osso que se revelarão no processo de luta e que não poderão
ser nomeados por decreto nas cidades.
Também a esse respeito ele gostava de recordar o exemplo de Virgulino Ferreira
(Lampião), o chefe cangaceiro que durante décadas lutou em seis estados do
Nordeste. Inicialmente o chefe do grupo era seu irmão, talvez por ser mais
velho. Foram os dons de comandante de Lampião que fizeram que se tornasse o
chefe reconhecido e acatado por todos.
Foi partindo dessas idéias básicas, e ao mesmo tempo partindo do zero em
termos de armas, recursos financeiros e quadros treinados que ele iniciou a ação
em 1968.
De um lado, conjuntamente com outros poucos, trata de conhecer o que chama de
"o coração" do Brasil, de entrar em contato com os camponeses, de
estudar suas reações e sua disposição de luta. De outro, agrupa em torno de
si uns tantos homens e inicia as ações de expropriação. Pessoalmente
vai aos bancos em busca dos recursos indispensáveis para financiar o plano
revolucionário. Surgem assim outros quadros, acumulam-se algumas armas,
diversificam-se as ações. O anonimato se mantém, não obstante, durante
muitos meses. A polícia fareja, mas não tem segurança sobre o verdadeiro
sentido dos repetidos assaltos a bancos e atos de sabotagem, nem sabe quem os
dirige. Ao mesmo tempo outros grupos revolucionários passam à ação e isso é
positivo porque aumenta seu volume ao mesmo tempo em que desorienta a polícia.
Porém, em novembro 1968 a polícia da Guanabara consegue certificar-se de que o
assalto a um carro transportador de dinheiro foi dirigido por Marighella e de
que ele esteve no lugar da ação. Sua cabeça é colocada a prêmio e é
declarado "inimigo público número um".
Manchetes dos jornais, fotografias de páginas inteiras, capas de revistas,
cartazes, emissoras de rádio e televisão cobrem todo o país. As versões são
todas deformadas, porém, os brasileiros acostumados à censura e ao noticiário
oficial, já aprenderam a ler os jornais ao contrário. Interpretam justamente
que existe uma atuação revolucionária concreta e que é possível atuar
contra a ditadura. Por isso mesmo Marighella dizia que aquele assalto não havia
produzido somente 120 milhões de velhos cruzeiros para os fundos revolucionários,
mas sim cinco bilhões e 120 milhões de cruzeiros velhos. Pois os técnicos em
publicidade estimaram em mais de cinco bilhões o preço que custaria tanta
publicidade nos veículos de difusão capitalista.
De toda maneira, as ações prosseguem e o movimento, a essa altura, já tinha
crescido e se havia expandido por várias regiões do País. Era necessário
consolida-lo em uma organização. Daí o surgimento da Ação de Libertação
Nacional. O documento "Questões de Organização" assinala que a
organização terá uma frente de massas, dedicada fundamentalmente ao trabalho
nas fábricas, bairros, escolas, fazendas, etc., partindo das reivindicações
imediatas, mas sempre com uma perspectiva geral revolucionária. A essa
"frente" cabe convencer às massas, tanto através da propaganda como
da sua própria experiência, da necessidade da luta armada e guerrilheira.
A frente de sustentação, ou logística, deve agrupar os companheiros capazes
de contribuir à satisfação direta das necessidades da ação armada e
guerrilheira. A frente guerrilheira esta constituída pelos Grupos Táticos
Armados - GTA - nas cidades e os homens empenhados em ações parciais no campo.
Finalmente, os companheiros empenhados na preparação concreta da guerrilha
rural ficam diretamente ligados ao que se acordou chamar trabalho estratégico.
Marighella insiste sobre as medidas indispensáveis de segurança e sobre a
necessidade de uma intensa ação de agitação e propaganda - armada e não
armada - com vistas ao esclarecimento das massas.
Ao mesmo tempo, a Ação de Libertação Nacional não pretende ser "o
Partido" nem "a Vanguarda". Ela não surge através de um
processo eleitoral, de reuniões e congressos, mas da própria ação. Sua direção
é constituída pelos companheiros que mais se destacaram nas diferentes frentes
de trabalho, particularmente na frente guerrilheira. Por isso mesmo não se
trata de um conjunto cristalizado e regido pelo "centralismo democrático".
A vanguarda surgirá efetivamente com o desencadeamento da luta armada no campo,
da guerrilha rural e sua transformação em uma prolongada guerra de libertação.
Constituíamos um grupo revolucionário e havia outros. Não pretendíamos ser
os donos da revolução, mas somente cumprir com nossa obrigação revolucionária.
O que nos interessava, por isso interessava ao movimento revolucionário
brasileiro, era que todas as organizações passassem à ação. Elas se
somariam sempre em benefício da revolução e facilitariam a aproximação das
diversas organizações no processo da ação. Quando for necessário serão
realizadas ações concretas comuns, porém, devemos evitar que as organizações
se mesclem e surja o risco de serem descobertas pela polícia em caso de prisões.
Como se sabe, ações desse tipo têm sido realizadas (por exemplo o seqüestro
do embaixador norte-americano e, recentemente, do embaixador alemão) e
propiciaram uma aproximação mais estreita entre as organizações.
Foi quando adotava as últimas medidas para garantir a segurança de numeroso
grupo de companheiros (Marighella sempre se preocupava mais pela segurança dos
outros que da sua própria) e se dispunha a iniciar a luta no campo que
Marighella caiu.
Há ainda quem pergunte se a ação prosseguirá depois de um golpe tão sério
como o assassinato do principal dirigente da organização, do homem que mais
contribuiu à mudança de qualidade no movimento revolucionário brasileiro. Porém,
o próprio Marighella tinha muita clareza sobre isso. Respondendo a um
jornalista francês da revista Front, em outubro de 1969, que lhe perguntou se
ele mesmo conduziria ao final o processo que iniciara, disse:
"Não se trata disso. A revolução não depende de pessoas, pois é uma
questão do povo e de sua vanguarda. A parte que me toca foi dar o início.
Nossa organização está integrada, em sua maioria, por companheiros de menos
de 25 anos de idade. Cabe aos melhores entre eles assumir a direção. Um deles
empunhará minha bandeira, ou, se você preferir, meu fuzil".
Em mensagem enviada aos quinze patriotas libertados em troca pelo embaixador
norte-americano, expressa uma vez mais sua profunda confiança na continuidade,
desenvolvimento e vitória da luta de seu povo:
"O povo brasileiro começou sua caminhada. E avança decidido, ombro a
ombro com os povos latino-americanos, com os olhos voltados à revolução
cubana, símbolo do triunfo do movimento revolucionário armado".
Naquela noite fatídica de quatro de novembro, os esbirros da ditadura cortaram
a vida de um grande líder revolucionário, porém, longe de sufocar a Revolução,
deram uma vibração ainda maior ao chamado à luta que foi toda sua vida.
O nome de Carlos Marighella se inscreve hoje com honra ao lado dos nomes de Che
Guevara e de centenas de outros heróis da luta pela liberdade, pela independência,
por um futuro feliz para a humanidade.
Seu exemplo continuará iluminando a luta libertadora dos brasileiros que saberão
vinga-lo com a própria revolução.
Joaquim Câmara Ferreira
Pela direção da Ação de Libertação Nacional
Novembro de 1969