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Jornal do Commercio Recife - 31.10.99 Domingo |
| HISTÓRIA Há 30 anos tombava o `número 1' da luta armada por PAULO SÉRGIO SCARPA A Delegacia Especial de Segurança Política e Social de Pernambuco acompanhou com detalhes a trajetória de vida, prisões e torturas sofridas por Carlos Marighella. Nos arquivos do Dops, hoje sob a responsabilidade do Arquivo Público do Estado, estão guardados prontuários, relatos de sua estadia no Recife e em Olinda em 1961, mandados de prisão e até uma cópia da obra mais polêmica do líder da Ação Libertadora Nacional (ALN) - o Manual do Guerrilheiro Urbano, de junho de 1969. Escrito cinco meses antes dele ter sido assassinado em uma emboscada, em São Paulo, dia 4 de novembro de 1969. Os trinta anos da morte de Carlos Marighella - na próxima quinta-feira -, são motivo de exposição, lançamento de livro e de debates públicos sobre o `inimigo número um' da ditadura militar, no espaço do Memorial da América Latina, em São Paulo, e até na Internet, com site especialmente organizado sobre a vida, a obra e a morte do guerrilheiro. Isso depois que a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça condenou a União pela morte de Marighella por 5 votos contra 2, em 1996. A comissão concluiu que ele foi assassinado por um tiro a curta distância, depois de imobilizado por três disparos fatais. Marighella foi deputado federal constituinte pela Bahia, em 1945, autor de grande parte das emendas apresentadas pela bancada do PCB, que tinha, entre outros, Luiz Carlos Prestes, Gregório Bezerra, João Amazonas e Jorge Amado. Tempos depois, deixou o Partidão e foi para a luta armada. O arquivo do Dops contém, ainda, algumas fotografias, suas impressões digitais tiradas em 1939 e uma série de cópias de pequenos documentos enviados pelos órgãos de repressão de diversos Estados, entre eles São Paulo e Rio de Janeiro. O arquivo da Delegacia Especial de Segurança e Política Social de Pernambuco sempre foi considerado um dos mais completos do País e era comum a troca de informações e cópias de informes e relatos entre as delegacias. Um desses documentos é a cópia da "análise das últimas instruções de Marighella para a guerrilha no Brasil" sobre o documento "Questões de Organização", feita em São Paulo pelo Quartel General da 2ª Zona Aérea. Nele, conta-se que o documento foi conseguido durante "diligência" no apartamento de Marco Antonio Bráz de Carvalho, conhecido como "Marquinho", apontado pela polícia como um dos que teriam matado o capitão Charles Chandler. O informe conta que "Marquinho" teria sido morto ao reagir à prisão. "Nesse documento feito por militares da Aeronáutica, o que mais chama a atenção são os comentários feitos sobre trechos de Marighella defendendo a organização da guerrilha e dando instruções táticas. "No documento, Marighella deixa claro que o problema do funcionamento geral e global da luta revolucionária ainda não está suficientemente amadurecido e vem sendo cuidadosamente estudado pela direção revolucionária que Marighella deseja para si", aponta o analista, Para concluir em seguida: "A guerrilha leva à luta revolucionária. A Revolução Comunista sempre marcha aceleradamente, todavia está aumentando sua velocidade, e é prova o absoluto descaso no tratamento da opinião pública nacional, historicamente avessa à violência". Os militares concluem, ainda, que a "guerrilha na concepção de Carlos Marighella é toda e qualquer ação contra a ordem pública, desde a imprensa clandestina até a captura de armamento". Feita essa ressalva, acrescentam que "verifica-se que o movimento revolucionário contra com uma direção geral revolucionária que planeja a estratégia geral". Os arquivos do Dops guardam, ainda, relatos sobre a presença de Carlos Marighella em Pernambuco. O mais antigo deles descreve a estadia no Recife em 6 de novembro de 1945, quando ficou na residência de um dr. Vieira Neto, "elemento comunista", para depois viajar de ônibus para São Paulo. |
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